domingo, 5 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS PARA ENCANTAR DE ONDE SAEM FADAS A VOAR








Uma boa história deve produzir em nós o encantamento e maravilhamento! Digo eu, pois a minha profissão vive de histórias. De boas histórias, é que tenho de contá-las aos maiores especialistas em histórias que conheço, os meninos!
Felizmente que há livros de boas histórias.

Histórias que se “recolhem aqui para logo ir contar ali”, como fez o escritor, José Fanha, no seu belíssimo livro,” Histórias para contar em Noites de Luar”.

Deste livro já tinha contado aos meninos, “A Estrela que caiu no Mar”. Adoro esta história, tanto mais que a estrelinha da história tem o nome da minha avó. Mas confesso que é difícil escolher do livro uma história preferida. Todas elas são histórias para contar e encantar em qualquer lugar mesmo que não haja luar!

São também histórias para todos os gostos e idades nas palavras do autor.

E entre um imperador da China, uma máquina que apanha poetas, estrelas do ar e do mar, circos de livros e palavras com domadora à altura, crocodilos, reis, rainhas, príncipes e princesas. Eis que surge uma fada.

(…)
Era linda a fada Florência. Tinha malmequeres no cabelo, tinha asas de libelinha cheias de reflexos e brilhos, tinha olhos cor de mel.

Foi depois de ouvir as palavras com que o autor desenhou a fada que surgiram as fadas dos meninos. A provar que dos livros e das histórias saem muito mais que palavras. Claro está, quando as histórias conseguem produzir encantamento e maravilhamento!


sábado, 4 de fevereiro de 2012

SOBRE TAPETES...

Ilustração Anne- Marie Foucart


 
Toda a gente sabe que os tapetes servem para pôr os pés. Limpar os pés…

Ou talvez não! Se assim fosse a mãe nunca se irritaria cada vez que ela ou o pai sujavam os tapetes. Ela nunca iria entender os adultos. Se alguém limpava os pés nos tapetes quando entrava em casa era porque sujava os tapetes se não limpava era descuidado e sujava os outros tapetes!

Até o avô e a avó discutiam por causa dos tapetes! A avó zangada porque o avô entornara o café no tapete e o avô argumentando não fora a mania dela em forrar a casa a tapetes e nada daquilo teria acontecido! Ela mesma quando começara a dar os primeiros passos tropeçara num deles e partira a clavícula. Mas mesmo assim a mãe e a avó estavam decididas em mantê-los a cada metro quadrado de chão. Eram Persas, de Arraiolos, de bambu, de palha… e de discussão. Estes eram feitos em tom de voz zangada e tecidos de ruído…

Se é verdade que os homens da casa nem sempre tinham razão. Quanto a tapetes estavam cobertos dela!

 Pois se estes só serviam para causar acidentes e arranjar discussão parecia-lhe que a solução era mesmo acabar com eles… no chão!

 Por ela tinha decidido que quando fosse grande na sua casa só haveria um tapete na parede. Para os dias em que lhe apetecesse Voar!

domingo, 29 de janeiro de 2012

LER A CHÁVENAS DE CHÁ


Fazia tempo que não passava uma tarde no sofá.

Quer dizer, no sofá da sala de estar. Normalmente preferia os sofás de areia, de conchas, de relva, de ramos de árvore ou o banco bem no fundo do jardim, aquele ladeado ora de malmequeres, de miosótis ou das suas flores preferidas, aquelas que os sonhos conseguem inventar. As mais belas e raras… aquelas que só ela via!

Mas hoje estranhamente apetecia-lhe ficar ali no sofá da sala frente à lareira…

A tarde estava cheiinha de sol e nem por isso muito fria!

Mas tinha decido que ficaria ali enrolada na preguiça com o gato da casa que era o único a fazer-lhe companhia.

Do sofá olhou compridamente o gato que tinha escolhido a fatia mais ensolarada da janela e pensou no quanto gostava de gatos. Animais cheios de personalidade e vontade própria, nada submissos conscientes da sua independência. O seu dormia de orelha em pé, parece que é assim que dormem todos os gatos. Parece que dormem e no entanto estão sempre de vigia reagindo a qualquer barulhinho, até ao crepitar da madeira a arder…

Via-lhe ainda a orelha a tremer cada vez que virava a página do livro que tinha escolhido para embrulhar a tarde e como já se sabe que a curiosidade matou o gato, este não tardou em levantar-se da janela para vir certificar-se do que ela fazia. Talvez porque ao pousar a chávena do chá no pires tivesse feito um pouco mais de barulho.

Não sei se procurando imitar o gato ou simplesmente procurando o sol que o fogo da lareira estava longe de igualar, correu para a janela escolheu também uma fatia de sol e ficou ali de chávena na mão a olhar o mar e a ouvir as Variações Goldberg de Bach.

O gato continuava a dormir de orelha à espreita...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O MAR SERENOU

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

O pescador não tem medo
É segredo se volta ou se fica no fundo do mar
Ao ver a morena bonita sambando
Se explica que não vai pescar
Deixa o mar serenar

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

A lua brilhava vaidosa
De si orgulhosa e prosa com que deus lhe deu
Ao ver a morena sambando Foi se acabrunhando então adormeceu o sol apareceu

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

Um frio danado que vinha
Do lado gelado que o povo até se intimidou
Morena aceitou o desafio Sambou e o frio sentiu seu calor e o samba se esquentou

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia

A estrela que estava escondida
Sentiu-se atraída depois então
apareceu
Mas ficou tão enternecida Indagou a si mesma a estrela afinal será ela ou sou eu

O mar serenou quando ela pisou na areia
Quem samba na beira do mar é sereia


terça-feira, 24 de janeiro de 2012

SERENIDADE AZUL


                                                    Duclós- Pintora Brasileira


Apesar da brisa forte o dia nascera solarengo e extraordinariamente lindo…

Assim por dentro da janela ninguém diria que estávamos em janeiro!

Pegou no livro que estava a ler e saiu a porta em direção à praia.

O vaivém das ondas deixava a descoberto as rochas atapetadas de algas, cheias de lagoazinhas…

O mar parecia uma colcha de seda azul que a brisa abanava e deixava cheia de nervurinhas.

Pensou na sorte que tinham as gaivotas. Vi-as escolher um pedacinho de mar e ficar ali a baloiçar. Por momentos imaginou ser uma delas…

Também ela escolheria o seu pedacinho de mar …

Sentia já o azul a tatuar-lhe a pele de conchinhas, de peixes, de algas…

E depois vinha sempre uma onda que a transportava para lá do infinito…

Lá onde as estrelas e ouriços-do-mar enfeitam os cabelos das sereias.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SONHOS NUNCA VISTOS

O que mais me fascina nos meninos é a sua capacidade de fazer sonhos!

É que os meninos sonham sempre sonhos nunca vistos.

E tenho muita pena que alguns adultos não se esforcem para conseguir ver com olhos de meninos ou através deles as maravilhas do mundo e da vida.

Asseguro-vos que os dias passados no Jardim-de-infância são sempre surpreendentes por mais vulgar que possa parecer a atividade.

Numa destas tardes fazia um sol esplendoroso resolvemos pegar então nos fiozinhos de sol e começar a tricotar a tarde…

Saímos da sala porque em tardes assim ficar fechado entre quatro ou quantas paredes sejam é absolutamente proibido. Um dos meninos chamou a atenção de todos para o sinal de trânsito colocado mesmo em frente à escola, o sinal de perigo que indica proximidade de escola para nós adultos porque a leitura dos meninos embora signifique o mesmo é bem mais fascinante. Para os meninos o sinal lesse;” Cuidado carros que os meninos vão contentes para a escola”!

E o Pedro apressa-se ainda a explicar que se vão a correr é porque vão contentes se assim não fosse iriam devagar! E eu a pensar que conhecia o código da estrada e afinal cheguei à conclusão que nunca tinha olhado para o sinal com atenção!


 O muro da nossa escola estava nesta altura quase careca, mas entre as placas de ardósia de que é feito os meninos conseguiram ver umas quantas lagartixas fugidias que tal como eles desfrutavam do maravilhoso sol de inverno…

Os pássaros apreciavam também a tarde ora cantando ora discutido por um lugar num ramo mais perto do sol…

O som que anunciava a passagem do comboio fez as delícias dos meninos que pediam que fôssemos até á estação com um pouco de sorte podiam vê-lo mais de perto…




Mas tal não aconteceu. O próximo comboio a parar na estação era para o Porto, mas demasiado tarde para o nosso tempo. Visitamos a estação, infelizmente desativada. No seu interior só funciona o bar onde e graças à gentileza da Dona Joana os meninos tivera direito a rebuçados. Já de regresso ainda passamos pela paragem de autocarros e descobrimos que não havia nenhuma carreira para a nossa escola!


 Na sala de aula os meninos desenharam os comboios…

Ao olhar os desenhos tive a certeza que os meus olhos não conseguiram ver o mesmo que os meninos…
Comboios mágicos com pernas que levam pessoas de sorrisos largos…

Comboios que parecem voar nas nuvens sobre carris de arco-íris. Foi então que pensei na sorte que tenho em ter os olhos dos meninos.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

EXERCÍCIOS DE CRIANÇA

Jangjung

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo
com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos
A mãe reparou que o menino gostava
mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever
seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz
de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o voo de um pássaro
botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde
botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

Manoel de Barros

                                                               

domingo, 15 de janeiro de 2012

CASAS DE PEQUENA...



Quando eu era pequena mudava muitas vezes de casa.

 Quando eu era muito pequena eu até nem me importava de mudar de casa, quer dizer, eu acho que me importava só que quando somos muito pequenos a casa mais importante fica nos braços dos nossos pais e todas as outras casas onde possamos morar perdem importância.

 Mas à medida que vamos crescendo as casas vão ficando mais importantes. Porque com elas vêm as pessoas de quem gostamos, as árvores que ficam mesmo em frente da nossa janela e onde os pássaros que conhecemos desde sempre fazem ninho. As casas têm cantinhos que são só nossos e alguns são mesmo muito especiais, como a minha varanda. Aquela que dá para o rio e outras vezes para o mar, que dá para as estrelas, de onde parto para as mais intermináveis viagens. E quando regresso a casa está sempre lá! A varanda, a sala verde, o jardim de inverno…

Não sei ao certo quantas são as casas “que me moram”, mas sei porque moram em mim!

sábado, 14 de janeiro de 2012

SOLIDÃO


Estás todo em ti, mar, e, todavia,
como sem ti estás, que solitário,
que distante, sempre, de ti mesmo!

Aberto em mil feridas, cada instante,
qual minha fronte,
tuas ondas, como os meus pensamentos,
vão e vêm, vão e vêm,
beijando-se, afastando-se,
num eterno conhecer-se,
mar, e desconhecer-se.

És tu e não o sabes,
pulsa-te o coração e não o sente...
Que plenitude de solidão, mar solitário!

Juan Ramón Jiménez, in "Diario de Un Poeta Reciencasado"
Tradução de José Bento

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

"INVENÇÃO DO OLHAR"


Voltei ao jardim…
Talvez para admirar de novo as MAGNÓLIAS
elas "que oferecem flores antes das folhas."
Dizem que só devem florir quando o inverno acabar,
mas então…
E o perfume intenso que vem misturar-se com o meu e o teu?!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

AS CASAS DA RUA DO POEMA

A casa

Era uma casa
muito engraçada
Não tinha teto
não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero...
na Rua dos Bobos, nº 0!

Vinicius de Moraes


Este é o poema que os meninos ouviram falado e cantado e sobre o qual pensaram.
E depois de muito pensar…
Nasceram no papel as casas maravilhosas que fariam a inveja de qualquer rua mas que só podem ser habitadas na rua do poema. Pois se assim não fosse, LER NÃO SERVIRIA PARA NADA!


sábado, 7 de janeiro de 2012

FLORES QUE ACONTECEM



- Estou no meio do Alentejo e apetece-me mandar-te um beijo. Dizias.
E eu sonhava um beijo largo…
Um beijo silencioso e quente, tal qual a brisa da planície.
Era maio, as papoilas e as margaridas cobriam os campos num mar de cor…
Flores que ninguém semeou, ninguém sabe como apareceram…
Flores que simplesmente e silenciosamente acontecem
como o beijo que quero dar-te
agora!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

LER UNS LIVROS



(…)

Hoje eu quereria ler uns livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da Natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações...

Hoje eu quereria apenas ver uma flor abrir-se, desmanchar-se, viver sua existência autêntica, integral, do nascimento à morte, muito breve, sem borboletas nem abelhas de permeio. Uma existência total, no seu mistério (e antes da flor? -- não sei) (e depois da flor? -- não sei). Esta ignorância humana. Este silêncio do universo. A sabedoria.

Hoje eu quereria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser. Livremente.


Cecília Meireles in Janela Mágica

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

COISAS DO MAR E DA TERRA


«No dia seguinte, logo de manhã, o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.

-Bom dia, bom dia, bom dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.

-Bom dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.

-Trago-te aqui uma flor da terra -disse; chama-se rosa.

É linda, é linda disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.

-Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

-É um perfume maravilhoso. No mar não há perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

-Mas o que é a saudade perguntou a Menina do Mar.

-A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora.»


Sophia de Mello Breyner Andresen in A Menina do Mar


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CORAÇÃO LIVRE





Te han sitiado corazón y esperan tu renuncia,
los únicos vencidos corazón, son los que no luchan
no los dejes corazón que maten la alegría,
remienda con un sueño corazón, tus alas malheridas


 
No te entregues corazón libre, no te entregues
no te entregues corazón libre, no te entregues


 
Y recuerda corazón, la infancia sin fronteras,
el tacto de la vida corazón, carne de primaveras,
se equivocan corazón, con frágiles cadenas,
más viento que raíces, corazón, destrózalas y vuela

 
No los oigas corazón, que sus voces no te aturdan,
serás cómplice y esclavo corazón, si es que los escuchas

 
Adelante corazón, sin miedo a la derrota,
durar, no es estar vivo corazón, vivir es otra cosa