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Há um caminho marítimo no meu gostar de ti.
Há um porto por achar no verbo amar
há um demandar um longe que é aqui.
E o meu gostar de ti é este mar.
Manuel Alegre
Blogue de aragem e aroma a maresia...de manhã (entre) tecida pela névoa, de tarde plácida batida pelas ondas, de rugido nocturno do pensamento...
A escola pequenina de que falo ficava mesmo ao pé da praia por isso, era por todos conhecida como, a escola da praia. Assim à primeira vista, a escola da praia era igual a todas as escolas, tinha tudo o que era preciso para ser uma escola, meninos, porque sem meninos a escola não existe. E um enorme recreio, sim, a escola era pequenina, mas tinha um enorme recreio, com um enorme Plátano. Para quem não sabe ou porventura já esqueceu, o recreio é o sítio da escola que os meninos gostam mais, os meninos e alguns professores também.
Senão vejamos, onde podemos dar a melhor aula sobre a vida das formigas? No recreio. Qual é o melhor lugar da escola para trabalhar as regras de socialização, a meteorologia, a intensidade do vento, o clima, as cores, os cheiros, os sons…
Qual o lugar da escola com melhor luz para ler, para pintar? Claro, o recreio.
No recreio desta escola por detrás das roseiras que cobrem os canteiros vive uma família de gnomos, um esquilo que adora comer o pão que o padeiro deixa no portão para o pequeno-almoço dos meninos. Uma família de minhocas, abelhas, borboletas, caracóis que deslizam por entre as folhas sobretudo quando chove, como todos sabem os caracóis são grandes apreciadores de passeios à chuva, muitos pássaros, principalmente chapins e gaivotas ou não fosse esta a escola da praia.
Há também um muro onde vivem imensas lagartixas, é assim como uma espécie de condomínio. Os meninos já sabem que durante o Inverno, as lagartixas ficam a dormir, pois detestam frio…
Mas para perceber melhor as estações do ano, basta observar o plátano que fica mesmo no centro do recreio. Quando começam as aulas, as suas folhas ainda estão bem verdinhas e seguras. Aos poucos vão ficando castanhas e chega o dia em que se transformam em pedacinhos de ouro esvoaçando e caindo sobre o chão. Outro dia, olhamos, e o plátano “está careca”. Sabemos que o Inverno está à porta, mas em breve a Primavera se encarregará de voltar a cobrir de folhas os seus ramos, para que nos dias de calor os meninos e os professores que acham o recreio o melhor sítio da escola, possam saborear a fresca sombra. Mas o que o plátano mais gosta é de ver os meninos pendurados nos seus ramos, porque como os meninos o plátano sabe que só do alto dos seus ramos podemos agarrar o vento, tocar o céu, ver melhor o mar…
Às vezes os meninos fazem perguntas surpreendentes, ou melhor, as perguntas dos meninos são sempre surpreendentes, os adultos é que nem sempre “ têm tempo” para se deixar surpreender!
Mas a minha profissão é feita de meninos, por isso nunca persigo o tempo e deixo que ele e os meninos me surpreendam. Como aconteceu ontem quando líamos a história, “O Pequeno Azul e o Pequeno Amarelo”, um livro delicioso da editora Kalandraka.
O livro conta a história de dois pingos de tinta, um azul o outro amarelo, amicíssimos e vizinhos que um dia se abraçam e ficam verdes…
O objectivo principal do livro talvez seja a exploração e aprendizagem das cores e digo talvez, porque o que se lê nem sempre está escrito e mesmo que esteja podemos sempre ler mais, tanto quanto os nossos horizontes o permitam…
E os meninos são tão cheios de horizontes!
Depois de ouvir o que se dizia sobre a história, Rodrigo perguntou intrigado:
- Ó Professora, os nossos abraços são de que cor?
Não vou mentir, já tinha pensado e sentido as cores dos meus abraços.
Por vezes são azuis salpicados de espuma branca, outras, completamente transparentes, e pensei também se um abraço transparente é o que não tem cor, ou se pelo contrário é onde estão contidas todas as cores!
Os meus abraços, são vermelhos quando apaixonados. Verdes se serenos.
Quando o meu abraço muda pra amarelo, ele é tão quentinho! E mais quente ainda se o pinto de cor-de-laranja…
Os abraços brancos são tão leves, parecem flocos de neve. E os castanhos, têm um cheirinho tão bom a terra!
Há quem fuja dos abraços pretos e cinza. Eu misturo-lhes uns pingos de branco e torno-os, leves…
Mas a minha cor de abraços preferida é aquela para a qual ainda não tenho nome mas que sei existe do lado de cá de mim!
E eu que cheguei a pensar que as cores iluminavam a vida, agora tenho dúvidas se não será a vida que ilumina as cores!
Definitivamente, as cores se não forem sentidas não fazem qualquer sentido!
O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.
Mário Quintana