sexta-feira, 19 de outubro de 2012

CANÇÃO DE OUTONO





Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecília Meireles

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

MAR POR DENTRO






Há horas que catava conchinhas e pedrinhas
 tal qual as sereias quando entornam a caixa dos anéis
o mar parecia feliz por vê-la
 embora ela nunca tivesse visto o mar.
É verdade que o trazia nos olhos
 e agora que estava à sua frente
 e o verde seu se entornava no azul
 era difícil dizer
 se o mar vinha dela
ou ela do mar.

Para a Bebiana, a menina do Jardim do Vale Encantado, (Tarouca), no dia em que viu o mar pela primeira vez.

domingo, 14 de outubro de 2012

AINDA QUE...





Ainda que o dia
tenha começado
a chuva
e o vento norte
não leve para longe
a raiva e a tristeza
que me vestem a alma…

Agora que o fogo
da tarde se apaga
regresso a casa
com o mar enrolado nos cabelos
e o pôr do sol no vestido.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

FADAS À CHUVA




(PARA SER LIDO SÓ POR QUEM ACREDITA EM “COISAS QUE NÃO EXISTEM, MAS QUE HÁ!”)




Aqui na sala temos uma especial predileção por Fadas e tudo o que tem asas!


Bom, por quase tudo!

E foi quando pedi aos meninos que desenhassem o que viam para lá da janela. Sim, eu disse para lá da janela. Não disse, o que viam da janela ou pela janela! Que descobri sobre Fadas e seus voares coisas curiosas e maravilhosas.

Normalmente, os meninos falam do seu desenho à turma, mas desta vez e depois de todos terem terminado. Coloquei os desenhos um por um num cavalete, pedi que imaginassem um quadro de um pintor, no caso o pintor seria o menino que fez o desenho. E só ele não podia comentar o “quadro – desenho”, até que toda a turma o fizesse. 

Tínhamos então um quadro que pintava qualquer coisa para lá da janela…

E foi no quadro da Filipa que a Dalila viu uma Fada à chuva!

Para logo ouvir dizer que as Fadas não podem andar à chuva porque as asas ficam pesadas e molhadas!

Mas se apanharem um pássaro já voam! E ao que me explicaram os meninos, “apanhar um pássaro” é aqui como que apanhar um avião! A Fada agarra-se às patas do pássaro e este tapa-lhe as asas com as suas asas! Também há Fadas que têm amigas Bruxas. Assim sendo, sempre que chove e as Fadas querem passear, ir às compras ou visitar as amigas, pedem à Bruxa sua amiga a vassoura emprestada. Porque toda a gente sabe, que as Bruxas não gostam de sair à chuva, pois com chuva os feitiços de Bruxa não pegam?!

E quando uma Bruxa se constipa não pode tomar xarope das abelhas, (mel),porque como tão bem é sabido, as Bruxas só ficam boas com xaropes que picam! Boas da gripe e constipações, entenda-se!

Por tudo isto outro remédio não resta às Bruxas, mesmo que sejam boas, que emprestar as vassouras às Fadas sempre que chove. Uma vez sentadas na vassoura, as Fadas abrem o guarda chuva para proteger as asas e também para a vassoura ficar mais bonita e bem disposta!



terça-feira, 9 de outubro de 2012

FIOS DE CHUVA



Vou a caminho da escola
e como queria encontrar-te…


Nem que fosse no fim do fio do telefone.

Na mensagem
que de quando em vez me mandavas
para dizer:
- Aqui na praia está um dia lindo!
Eu e o mar
sentimos a tua falta!

E eu, a falta que sentia,
das nossas conversas matinais
com sumo de laranjas, torradas
e algum sono à mistura. 

E depois vinha o mar…
E eu esquecia o quanto me irritava
chegar à escola
embrulhada no fumo do teu cigarro!

Sim, também sinto falta
das tuas descomposturas,
por  me esquecer
de comer,
de ter os papéis prontos a horas…

Papéis que acabavas por fazer
por saberes quanto os detestava!

Ah! E que saudades,
dos projetos
das mil e uma atividades…

De discordares completamente
do último livro que li
dos meus poetas preferidos
dos meus lugares.

Não adianta
ligar o skype
nem procurar-te no facebook
se alguma vez
me tivesse cadastrado!
Hoje não vais estar lá…

No meu dia chove!

Ao sol
só consigo vê-lo
aninhado nos dióspiros
e nalgumas rosas
que nascem das cercas dos jardins.

Mas por entre os fios de chuva
há pássaros felizes!