domingo, 27 de dezembro de 2009

Menino Gaivota


Uma Gaivota chamada ZéZé

Conheci o Zézé quando estive em Terroso Póvoa de Varzim. Chegou ao jardim pela mão da mãe, pela mão é como quem diz, o Zézé sofrera um traumatismo pós-parto que o impossibilitava de andar, articular a linguagem…aparentemente a cadeira de rodas e todas as lesões provocadas pela paralisia cerebral diagnosticada, faziam dele um menino diferente.


Zézé ria, ria…tinha o sorriso mais belo que algum dia vi, e os olhos, os olhos mais luminosos e expressivos que todas as palavras! Adorava dançar, o seu corpo parecia beber a música e os seus olhos transbordavam felizes…gostava de correr atrás dos amigos e a cadeira de rodas nunca se revelou um obstáculo, gostávamos do Zézé pela alegria que nos transmitia, pelo sorriso e pela magia dos seus olhos.


Uma manhã, fomos á cividade de Terroso, um lugar lindo que todos deviam conhecer. Por ser terreno íngreme o Zézé foi levado ao colo; chegados ao cimo, ficamos a olhar a paisagem magnífica e algo de inesperado aconteceu, Zézé saiu dos meus braços e voou!


Talvez o Zézé nunca consiga andar…nem experimentar o som das palavras ,mas quem precisa disso quando se tem um coração de pássaro…
Teresa Queirós


“Mansa gaivota a voar,
Asa mansa, mansa onda
Fugida mansa do mar…”

Anjos de Pijama, Matilde Rosa Araújo



quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

UM NATAL QUE ERA O MEU...


O Natal que era o meu...

Mal começavam as férias, aí íamos nós a caminho da casa dos avós maternos. Eu, minhas irmãs, as primas Francina e Paula e já bem pertinho da noite de Natal, os primos e tios do Porto e Coimbra.


Os preparativos para a festa eram a minha parte preferida. Costumava ir com o avô António à papelaria\livraria,do senhor Gouveia, buscar os livros que o avô tinha encomendado para oferecer. A mim cabia-me a honra especial de escolher as bolas para o pinheiro e, eram todas tão bonitas e brilhantes, que a escolha se revelava tarefa bem difícil.Depois havia que colocá-las no pinheiro com todo o cuidado, pois como eram de casquinha de vidro partiam ao mínimo toque.Todos os netos ajudavam a enfeitar o pinheiro e claro a fazer o presépio.Do ritual do presépio,ir ao musgo era outra das minhas tarefas favoritas,era a altura em que podia mexer na terra e sujar-me sem ouvir um ralhete de minha Mãe.


Com a casa enfeitada, as brincadeiras e gritaria em crescendo o Natal estava cada vez mais perto...Pela casa,sentiam-se agora os cheiros do Natal, cheiros que punham na mesa , a aletria tão do agrado do avô,o leite creme,as rabanadas ,as filhós ,os bolos de figo e noz, os formigos ,os meus preferidos, e tantas iguarias,que faziam as delicias de famila e amigos... Ao jantar comia-se o tradicional bacalhau com todos,só o tio Manel substituia o bacalhau por raia,havia também arroz de polvo e esparregado de penca.


Acabado o jantar ,assistiamos a pequenas peças de teatro que meu avô e meus tios preparavam,era sempre uma enorme risota...Depois a avó Mila acompanhava ao piano,as canções que toda a familia cantava...


De repente... Um barulho enorme vinha da cozinha,imaginem ,o Pai Natal tinha atirado pela chaminé um enorme saco de prendas que demorava algumas horas a distribuir por toda a familia. No meio de toda aquela excitação,chegava a hora de ir para a cama...Não sem antes pôr o sapatinho na chaminé,o Menino Jesus viria durante a noite para deixar o presente que guardo com mais ternura no meu coração...


A saquinha de pano cheia de fantasias de chocolate.Carros, bonecas,sinos ,flores ...tudo de chocolate,era uma espécie de saquinha mágica,dela, mais do que chocolates , saíam histórias, jogos , canções,mil e uma ternuras...


Ah, como sonho encontrar em cada manhã de Natal a saquinha mágica, dos natais da minha infância.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

LEITURA NO QUOTIDIANO DO JARDIM DE INFÂNCIA



Um livro para ler na sala de jardim de infância,deve ser antes de mais,um bom livro.Mas que livro será esse? O livro mágico que faz todos gostar de ler?


Eu diria que um bom livro, é aquele que pode ler-se das mais variadas formas,e do qual se conseguem fazer histórias intermináveis. O livro tem de fazer parte da rotina da sala de aula,e as crianças têm de lê-lo e relê-lo por vontade própria .


Mas como apresentar os livros ás crianças?


Esta é uma pergunta que me faço muitas vezes, e para a qual vou encontrando algumas respostas. Às vezes basta estar atenta à forma como as crianças pegam no livro, falam com ele...um bom livro é certamente aquele que depois de retirado da estante para dar lugar a outro , as crianças pedem que volte.


Na nossa sala lemos livros invisíveis,lemos livros de trás para a frente,lemos sentados,deitados, ás vezes só lemos o titulo do livro, fazemos a história antes de a ler... outras vezes lemos no jardim , na praia...mas o que todos adoramos é entrar dentro dos livros! Sim, porque para quem não sabe ,entrar dentro de um livro é a melhor forma de ler.


Não sei se vou tranformar estas crianças, em adultos devoradores de livros, o que sei é que na nossa sala lê-se e gosta-se do sabor doce da leitura.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

AS MELHORES PRENDAS...

Tenho para mim que os melhores presentes são aqueles que se oferecem sem data nem hora marcada.


Um abraço, pode ser o presente ideal, uma pedrinha, uma concha que nos é dada como se do maior tesouro se tratasse...ou quando te oferecem "migalhas de sol" que entram pela janela da sala de aula.



Um poema, pode ser o presente que estamos a precisar, um trecho de um livro que já lemos, ou não, um passeio à beira-mar, olhar as estrelas, sentir o luar , a chuva o vento, o aroma das flores das árvores...uma canção, pode ser o presente ideal em determinado momento da nossa vida ou da vida de alguém que nos é particularmente querido.



Ou...como o presente que recebi esta manhã, depois de sereno acordar. O novo disco de Arianna Savall , "Peiwoh". Um disco de harmonia e calmaria que nos transporta a um mundo de magia, emoções, de uma beleza indescritível. Um presente que enche o coração e faz transbordar a alma.



Música que apetece beber e desfrutar devagar, devagarinho...





sábado, 5 de dezembro de 2009

DRAGÃO...IMAGINAÇÃO

Uma História ouvida...uma História recontada com toda a imaginação das minhas Crianças do Jardim.

Eles conheceram o escritor José Fanha, eu li-lhes e vou lendo Histórias do livro " A Noite em que a Noite não Chegou", nomeadamente " A Verdadeira e Maravilhosa História do Dragão Samuel", depois, depois...é sentá-los em roda e ouvir as suas versões imaginativas, cativantes, quase outras histórias. Apontar os seus lampejos de pureza, de ideias, de sonho, que se vão juntar, com a minha ajuda, aos seus desenhos "draconianos".

E assim se foi tecendo esta História, a que bastou acrescentar a versão musical de Nara Leão, da célebre canção de Peter, Paul and Mary, "Puff The Magic Dragon", que para mim, agora, será sempre "Samuel, The Magic Dragon" !


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ó AVÔ...COMO É O MAR LONGE?


(quadro da pintora brasileira Duclos)


Era neta e filha de pescadores. As suas raízes, como as das algas, estavam naquela imensidão de águas sem fim. Rosina sabia o mar como os seus dedos. Seu regalo eram as conchinhas, estrelas, ouriços, tintureiros, buzinas, que marcavam o rasto das ondas, onde, paciente, descobria seus tesouros.


Seus brincares as fontes, os corguinhos, os jardins da maré vaza, transparentes de areia lavada e quieta, riscados por cardumes gelatinosos, onde floriam, roxas, vermelhas, verdes, as anémonas e o mexilhão, aberto, oferecia o ferrete, azul, das suas conchas naufragadas.


Quando ia ajudar a varar o barco, o avô entregava-lhe a gamela das fanecas, que não iam à lota, as da ceia. E, quando o caminho de casa, ele lhe pegava ao colo, Rosina pedia:
- Vocemecê não me leva ao mar, avô ?
- Tu és da terra. O nosso Quim é que se há-de afazer a Ír connosco, quando deitar mais corpo.
- Ó avô, mas eu também queria ir...
E o avô ria daquela teimice de menina. Rosina amuava: já tão espigada e fazedeira e ninguém a tomava a sério... À hora da ceia, esquecida do amuo, insistia:
- Ó avô, como é o mar longe?
- Como queres tu que seja, rapariga! Como o daqui. Azul, sempre igual.


Aquilo dizia o avô para lhe calar a boca e poder falar à vontade com o pai das más pescarias e do tempo. O avô não era mentideiro e sabia que o mar não era sempre azul. E então o mar cinza, pescoço de pombo? E o mar branco, asa de gaivota? E o mar lombo de ruivo, ao entardecer? E o mar azul, azuis muitos, de mexilhão aberto? E o mar verde, verdes limos? Perigos teria. Havia de ter, pois sempre rezavam pêlos que andavam sobre as ondas. E marés havia que não eram marés de mar, quando o avô e o pai rondavam a praia, se sentavam ao pé do barco, mas não se faziam às ondas, que rebentavam, ferventes, na enseada do sul, toldada pela ceguidão da névoa.


Depois clareava. Longe, passavam os navios, ao rés da linha, em que o mar tocava o céu. Que haveria para além? Nisso cismava Rosina. Deixara, porém de fazer perguntas. À noite, fechava-se, como uma anémona, quando se lhe toca e punha-se a sonhar. Fantasiava a outra margem da imensidão, onde molhava os pés à beirada. A barranha do penedo seria loura, como um favo. Lapas empenachadas de limo e botelho abririam boquinhas sôfregas, com o movimento das ondas, miúdas, de flor branca, empurradas por um ventinho brincalhão, que despenteasse as guelras vermelhas e denteadas das algas. Cardumes de peixes viriam comer-lhe à mão, como pintos. E brincaria aos quatro cantinhos com as pulgas que eternamente jogam aquele jogo no areal. Todas as noites, como quem acrescenta um beijinho novo à fiada de antigo colar, afeiçoava aquele sonho. Partia, numa barca de espumas feita, a todo o vento, para a outra margem do mar, para o longe sem fim, de além e distância. Todas as noites deixava a enseada, as camas de sargaço, estendidas a secar e se fazia às ondas e ao sonho. Como encontraria o caminho?


Ora, as estrelas subiriam à tona para lhe indicar seu rumo, sem norte nem sul. E se friasse? Os peixes ruivos ou as fanecas lhe trariam um xalinho, arrendado, de chorão do mar, para agasalho e acabaria por chegar à outra margem, cheia de rochas-grutas, onde o seu nome: Rosina-ina-ina, som de bazio ficasse.


Quando o avô e o pai fumavam, cismentos, a menina desdobava, lenta, o novelo dos sonhos e partia na sua barca de espumas.


E todas as noites adormecia, antes de chegar à outra margem do mar.


Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar,Crónicas

O MAR TEM JARDINS...


Praia de Vila Chã com gaivotas,praia, barco, areia, meninos e tudo... (desenho do Alexandre, 5 anos)


- É o que lhe digo. O mar tem jardins...Jardins, cheios de búzios, corais e concheiros...A areia é lá tão fina como o pó do oiro. As árvores são maores que pinheiros velhos e os peixes andam de galho em galho, como aqui os pássaros. Como sei? Ora sei, porque sei. Há coisas que a gente sabe com o coração, sem precisar de as ver. (..)

Luísa Dacosta, A-Ver-O-Mar,Crónicas