sexta-feira, 8 de junho de 2012

CREPÚSCULO SOLITÁRIO




Vento di mar
Trazê'me um cretcheu
Ness detardinha
Di ceu nublado
Um tchuva d'amor
Podé fazê flori
Um coração
Quemode di paixão

Na patamar
Dum vida singela
'M contemplá
Dona felicidade
Nem um olhar
'M encontrá
Num multidão
Tão solitária

Ja tem gente
Gente até demas
Qu'tita sofrê
Na solidão
Ja tem gente
Qu'ta quase to morré
Na luz cadente
Dum crepúsculo

Ja tem gente
Gente até demas
Qu'tita sofrê
Na solidão
Ja tem gente
Qu'ta quase to morré
Na luz cadente
Dum crepúsculo

quarta-feira, 6 de junho de 2012

PARA QUANDO APETECE SER BARCO




                                                                     SOU BARCO

Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento.

Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.


António Borges Coelho




terça-feira, 5 de junho de 2012

A HORTA QUE NASCEU NA VARANDA PORQUE NÃO TEVE AUTORIZAÇÃO PARA NASCER NO RECREIO




Se é verdade que todas as casas devem ter uma varanda e muitas, muitas janelas, deviam também ter um quintal.

Agora o que nem passa pela cabeça é uma escola sem recreio!

E no recreio os meninos deviam fazer tudo, mas tudo o que se pode fazer num recreio. Pena que às vezes aparecem uns quantos adultos que decidem vá-se lá saber porquê, que os recreios são para usar pouco! Quer dizer, de preferência usar quase nada, que pode estragar!

Mandam colocar árvores muito bonitas, arbustos exóticos e semear relva, mas já decidiram que ninguém pode trepar às árvores nem pisar a relva e ai do professor que sonhe sequer alterar a estética do jardim.

Uma horta no recreio?! Mas é que nem pensar!

Mas a Professora era teimosa! Quando se trata de boas causas que fique claro!

E ela e os meninos tinham decidido depois da visita à horta do Sr. Abílio e da Dona Matilde, que teriam uma horta nem que fosse na varanda!

Compraram tudo o que é necessário e puseram mãos à obra.

Depois de preparada a terra semearam feijões e alfaces. Plantaram couves, tomates, abóboras e até um manjerico.

Depois de tudo regado os vasos foram colocados na varanda e os meninos transformaram-se em autênticos guardiões da horta observando ao milímetro o trabalho da natureza. 

Os feijões já têm flor e tal como os tomateiros tiveram de ser estacados.
Os meninos acharam graça quando a professora lhes disse que há legumes que tal como eles também gostam de trepar! 

A horta está um mimo e quem sabe os meninos ainda consigam durante este ano letivo provar os legumes da horta da varanda em salada ou sopa!

Para os que duvidaram que a professora e os meninos fariam uma horta na varanda aqui ficam as fotos!


domingo, 3 de junho de 2012

TEMPO PARA LER O MAR





Tinha até perdido a conta ao tempo que estava à janela olhando o mar.

O mar. Sempre o mar a levá-la para longe… os seus longes!

Desde pequena, quando não estava ainda autorizada a vagar sozinha pela praia que aprendera a abrir a janela, umas vezes para deixar entrar a maresia, outras para impregnar-se do seu perfume. E nas tardes em que a nortada cantava despenteando o mar e a areia, tentava igualar o voo das gaivotas soltando ao vento os cabelos e preparando a descida ao profundo das águas…

De volta à superfície aportava na sua ilha, ilha que só existia no mapa da imaginação e onde estendida na areia ficava como concha abandonada misturada com os véus de espuma tecidos pelas ondas.

Longe de tudo. Só ela e tanto mar para ler!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O PERFUME DOS LIVROS




Os livros têm perfume
que não é de homem ou de mulher
e nem sequer é parecido
com outro perfume qualquer;
é um perfume sem nome,
não é de flor ou maresia,
mas tem o aroma secreto
que existe na poesia.

José Jorge Letria



Os nossos agradecimentos à Fundação A Lord pela participação em mais uma edição da Feira do Livro e todo um ano de atividades na Biblioteca.

E um beijinho muito carinhoso para a Fátima e a Rosário, as Bibliotecárias que durante o ano letivo além dos mimos com que sempre nos receberam nos ajudaram a descobrir o perfume dos livros!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

"ÁRVORES QUE DÃO PÁSSAROS"




Algumas proposições com pássaros e árvores

QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
 

Ruy Belo

quarta-feira, 23 de maio de 2012

"HISTÓRIAS QUE VOAM"





Esta é uma história menos feliz.

Os meninos sabem que as histórias por vezes não acabam bem. Quer dizer, tão bem como desejaríamos. E na história que agora vou contar nem a varinha da fada Florência conseguiu reunir a magia suficiente para que no final da história pudéssemos dizer; “ E foram felizes para sempre!”

Estavam os meninos do quarto ano no recreio da tarde e eu no fim da atividade letiva preparava-me para sair. Quando o Pedro e o Rafael me entram aos gritos na sala.

- Professora! Tem de vir imediatamente ao recreio! Está um pássaro bebé no chão! Deve ter caído do ninho. Por favor, venha ajudá-lo! Dizia o Rafael empurrando-me à sua frente!

Quando cheguei ao recreio a Carolina já estava com o passarinho na mão.

- Coitadinho está a abrir a boca! Temos de dar-lhe água e “minhocas”. Dizia.

Os pequenos gritavam todos ao mesmo tempo e até já tinham tirado o ninho do arbusto, ninho onde se encontravam mais duas pequenas criaturinhas que abriam igualmente o bico.

Já com todos sossegados, disse-lhes que não deviam ter tirado o ninho do lugar. Tal como as pessoas, os pássaros não gostam que lhes devassem a casa! E quanto a alimentar os pequenos pássaros isso era tarefa dos Pais.

Coloquei o ninho no lugar sabendo de antemão o que iria passar-se…

Hoje pela manhã contei o que se tinha passado aos meus meninos. Antes de irmos ver o que se passava preparei-os para o pior.

Tal como previ no ninho estava um passarinho sem vida. Mas se eram três?

Logo a Margarida sugeriu que a mãe deve ter levado os dois para outro ninho e aquele como caiu estava ferido, morreu! 

Os meninos estavam tristes. O Rodrigo tinha o ninho na mão e olhando para o pássaro disse:
- Ele não estava vestido e morreu de frio! O ninho não tem tampa!

- Os ninhos não têm tampa! Agora era o Pedro que falava. Morreu à fome e ao frio! Agora temos de fazer o funeral!

E antes que eu tivesse tido tempo de dizer fosse o que fosse, fizeram debaixo do arbusto uma cama de folhas onde colocaram o pássaro que taparam com outras folhas!

A Rita e a Raquel procuraram flores que depositaram em cima das folhas.

O ninho estava vazio e os pequenos admiravam a forma como estava feito.

Levamo-lo para a sala. Agora que mais nenhum pássaro iria morar nele.

A Raquel colocou-o em cima da mesa e disse que ia desenhá-lo. Alguns dos colegas resolveram imitá-la e começaram a sair do papel pássaros coloridos vindos igualmente de ninhos cheios de cor. Que voavam cada vez mais alto, tão alto como só os pássaros sabem!

E assim termina a história dos “PÁSSAROS QUE NUNCA SAIRAM DO NINHO MAS QUE VOARAM MUITO E PARA MUITO LONGE!”