quarta-feira, 2 de março de 2011

Uma cartinhazinha

(Joan Miró)

Há já alguns dias que reparava que depois do toque de saída Cláudio se mantinha na sala de aula por mais tempo. Percebeu que o pequeno queria dizer-lhe algo mas cada vez que se preparava para perguntar-lhe, se tinha alguma dúvida se alguma coisa o preocupava, este saía num apressado: - Até amanhã professora. Mas hoje quando fechava a porta da sala foi surpreendida por uma vozinha que entre o envergonhado e o decidido, dizia:

-Professora, queria pedir-lhe uma coisa, é uma coisa que pode demorar algum tempo…

Pensou tratar-se de alguma dúvida relacionada com a matéria, mas o pequeno apressou-se a esclarecer; queria ajuda para escrever uma carta… uma carta de amor.

Disse ter pensado pedir ajuda ao irmão mais velho mas este rir-se-ia dele, diria que isso de cartas de amor é coisas de meninas… o pai e a mãe andavam sempre tão ocupados que não tinha coragem de pedir-lhes, ela sim, era quem podia ajudá-lo, além disso não conhecia ninguém que como ela soubesse tantas palavras e tinha ouvido dizer que para escrever cartas é preciso conhecer muitas palavras.

Olhou-o comovida e pensou há quanto tempo ela não escrevia uma carta e ainda há mais tempo, uma carta de amor!

Interrompendo os seus pensamentos, o menino tirou do bolso um pequeno pedaço de papel onde desenhara um coração e bordara a letra miúda uma simples frase, Gosto de Ti.

Sorriu, à sua frente tinha a mais bela e objectiva carta de amor que alguma vez lera. Ela não escreveria melhor, provavelmente usaria mais palavras, perder-se-ia com palavras, demoraria com as palavras e teria esquecido que na simplicidade das palavras se dizem as maiores coisas.

Difícil foi convencer Cláudio que não precisava de ajuda para escrever a carta, que sozinho tinha escrito a mais bela carta de amor.

3 comentários:

Anónimo disse...

Cara colega:
Gastamos tanto as palavras...nós os adultos! Os adultos usam muitas vezes as palavras em "palavreado" sem nexo, sem sumo, sem luz.
Olhe as nossas reuniões de escola...onde a serenidade de um gosto de ti,é substituída antes pelo bla, bla, bla, que leva a um z..., z..., z..., ruído, triste atonalidade docente.
Era tão preciso retornar à simplicidade das crianças, às suas cartas de ensinamento da arte de falar pelo sentir.

Mais um belo Texto, cara Colega Teresa.Olhe...em estilo Carta : os poucos que aqui bem respirar Gostam de Si, desse alinhamento sensível do coração com os passos-palavras que escreve.
Bem Haja!

Ana disse...

Os meus olhos estão marejados de água,...
Obrigada, por nos lembrar que o amor é simplesmente belo e simples!

Marta Vasil disse...

E porque não me quero perder com muitas palavras digo apenas "que grandeza de peito em tão poucas palavras..."


Beijinho