sexta-feira, 13 de junho de 2014

QUADRA MEIO SÉRIA


     Willy Ronis



Não sei se alguma vez te pedi

Mas se não, vou-te pedir:

- Por favor nunca me digas

o que sabes que quero ouvir.

domingo, 8 de junho de 2014

HAVIA UMA MENINA





Havia uma menina debaixo 

da cerejeira


tinha tranças

e um vestido  cheio de nuvens muito brancas

nuvens de maio e junho

e na mão um cestinho de vime


no cesto estavam conchas

apanhadas numa tarde de verão

conchas que guardavam histórias antigas


histórias que caíam no chão

sempre que abria as mãos

e se misturavam com as raízes da cerejeira


dizem que no fundo cesto guardava ainda

várias mãos de sonhos

que gostava de espalhar no vento

e no infinito das nuvens do vestido


dentro do cesto da menina

o sol vermelho das cerejas

azulava-se de mar

e as cerejas eram afinal

apenas conchas com silêncio por dentro



quarta-feira, 4 de junho de 2014

" QUERO QUE OS MEUS VERSOS SEJAM ROUPA A SECAR AO SOL "





Os dias sem poesia afastam-me de ti: como o céu

quando abre uma fenda e deixa verter a eternidade

sobre o inverno do mundo. Amo a lua das crianças,

amo as salinas abandonadas do teu passar

e todos os venenos divinos do amor: a alma

liquefeita dos mitos derramada na planície

do esquecimento.

Quero que os meus versos sejam roupa a secar ao sol

entre duas janelas, coisas de uso que se lavam

cada semana até não poderem lavar-se mais. A poesia
    
não é cosa mentale [isso é a pintura, disse Leonardo]
 
é coisa de estender no arame com a humidade efémera
 
de um beijo que seca enquanto se vai ao trabalho e

se recolhe num braçado ao regressar


                                                         Nuno Higino

terça-feira, 20 de maio de 2014

HÁ UM GATO NO POEMA...





Há um gato pendurado no poema.

Um gato

a quem a chuva veio embalar o sono…

Quando a chuva parar,

as borboletas voltarão ao nariz do gato

para lhe emprestar as asas

e o gato há-de voar…


Há um gato no poema

que deixou o sofá vazio…

sábado, 17 de maio de 2014

ELEGIAZINHA





Elegiazinha

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.



                                                          ASCHER, Nelson