quarta-feira, 18 de junho de 2014

" SE EU TIVESSE UM POMAR ELE ESTARIA SEMPRE EM FESTA..."





Se eu tivesse um pomar, um pequeno pomar que fosse, não lhe poria grades à roda, como os outros proprietários. Não poria, a guardá-lo, um desses cães enormes, rancorosos, que andam sempre rondando os pomares...
O meu pomar seria assim: todo aberto, para todos.  E, quando o outono chegasse e as árvores ficassem cheias de frutos amarelos e vermelhos, nenhum pobrezinho teria fome, nenhuma criança choraria de sede, passando pelo meu pomar...
E, no inverno, ainda haveria lá onde alguém se abrigasse, quando chovesse muito ou fizesse muito frio...
Se eu tivesse um pomar, ele estaria sempre em festa, cheio de borboletas e de pássaros...
Como eu seria feliz, se tivesse um pomar!

                                                                  Cecília Meireles



domingo, 15 de junho de 2014

DOS MEUS VERSOS HÁ-DE SEMPRE VER-SE O MAR






Dos meus versos há-de sempre ver-se o mar

Há-de haver sempre
Ondas que vão e veem
E um barco a baloiçar com o teu nome

Nos meus versos

Os peixes confundem-se com os pássaros
E as palavras têm nomes de conchas
Que guardam a alma do vento
E sopram a saudade pela praia

Nos meus versos

O sol há-de encostar-se à sombra do silêncio
Como um livro de poemas para ler
Um livro onde as algas marcam as páginas
E as perfumam como se fossem cabelos de sereia

E quando o sol apagar os meus versos
Já as palavras terão aprendido
A desfazer-se em espuma

sexta-feira, 13 de junho de 2014

QUADRA MEIO SÉRIA


     Willy Ronis



Não sei se alguma vez te pedi

Mas se não, vou-te pedir:

- Por favor nunca me digas

o que sabes que quero ouvir.

domingo, 8 de junho de 2014

HAVIA UMA MENINA





Havia uma menina debaixo 

da cerejeira


tinha tranças

e um vestido  cheio de nuvens muito brancas

nuvens de maio e junho

e na mão um cestinho de vime


no cesto estavam conchas

apanhadas numa tarde de verão

conchas que guardavam histórias antigas


histórias que caíam no chão

sempre que abria as mãos

e se misturavam com as raízes da cerejeira


dizem que no fundo cesto guardava ainda

várias mãos de sonhos

que gostava de espalhar no vento

e no infinito das nuvens do vestido


dentro do cesto da menina

o sol vermelho das cerejas

azulava-se de mar

e as cerejas eram afinal

apenas conchas com silêncio por dentro



quarta-feira, 4 de junho de 2014

" QUERO QUE OS MEUS VERSOS SEJAM ROUPA A SECAR AO SOL "





Os dias sem poesia afastam-me de ti: como o céu

quando abre uma fenda e deixa verter a eternidade

sobre o inverno do mundo. Amo a lua das crianças,

amo as salinas abandonadas do teu passar

e todos os venenos divinos do amor: a alma

liquefeita dos mitos derramada na planície

do esquecimento.

Quero que os meus versos sejam roupa a secar ao sol

entre duas janelas, coisas de uso que se lavam

cada semana até não poderem lavar-se mais. A poesia
    
não é cosa mentale [isso é a pintura, disse Leonardo]
 
é coisa de estender no arame com a humidade efémera
 
de um beijo que seca enquanto se vai ao trabalho e

se recolhe num braçado ao regressar


                                                         Nuno Higino