segunda-feira, 15 de julho de 2013

A PROPÓSITO DE POEMAS DE E SOBRE GATOS





Se o “ Bigodes de Arame” soubesse ler…
Podia emprestar-lhe, (primeiro, teria de o fazer jurar que me devolvia o livro), uma antologia de poesia sobre gatos.
É da Assírio & Alvim, e reúne, poemas de, Eugénio de Andrade, Paul Éluard, Fernando Pessoa, Baudelaire, Nuno Júdice, Pablo Neruda, Alexandre O´Neill…
Ou um outro livro maravilhoso de, Ferreira Gullar, “ Um Gato chamado Gatinho”.
Pelo sim pelo não, vou deixar aqui dois poemas que talvez encham de curiosidade outros gatos… E os façam procurar os livros.




ODE AO GATO

Os animais foram
imperfeitos,
compridos de rabo, tristes
de  cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça vôo.
O gato,
só o gato apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e pássaro,
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato do bigode ao rabo,
do pressentimento  à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma  coisa
só como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogar as moedas da noite .

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na intempérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o  terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundíssimo  gato,
polícia secreta
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertences
ao habitante menos misterioso
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gato, companheiros,
colegas,
discípulos ou amigos do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e o seu arquipélago,
o mar e a cidade incalculável,
a botânica
o gineceu com os seus extravios,
o pôr e o menos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos têm números de ouro.


                                                                                Pablo Neruda
                                                                                                                                               




O ron-ron do gatinho

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.

                                                               Ferreira Gullar



UM GATO NO SOFÁ DA BIBLIOTECA





O gato de que falo é nem mais nem menos, o “Bigodes de Arame”.

Apareceu esta manhã na sala de aula enquanto eu arrumava os armários e os restos de ternura que ia apanhando aqui e ali…

Entrou pela porta da varanda. Confesso que não tinha dado por nada até tropeçar numa bola macia e fofa. Depois dos cumprimentos foi instalar-se no sofá da biblioteca e aí ficou toda a manhã enquanto eu e a Joaninha continuávamos a arrumar.

Por momentos senti-me tentada a trazer o “Bigodes” para casa!
Já moram cá em casa dois gatos…

Talvez houvesse espaço para um terceiro. Haveria certamente, mas o Bigodes é um gato vadio! Aquilo que um gato deve ser na essência. Livre para fazer o que lhe apetece, quando lhe apetece. Claro que ser gato de apartamento podia dar jeito. Comidinha a horas, cama fofa, quente ou arejada, dependendo da época do ano. Com direito a passar alguns dias na praia durante o ano ou a viajar até ao Douro algumas vezes.

Mas não, apesar dos mimos e afagos, não me parece que o” Bigodes” trocasse a sua vida de incerteza e aventura pelo conforto de um apartamento ainda que de seis assoalhadas!

A verdade é que fico com pena que não more mais perto cá de casa. Tanto mais que nem sei se vou voltar a vê-lo. Pois apesar de ainda ter trabalho para fazer na escola não é certo que apareça. E também não sei se volto em setembro. E se voltar, talvez o “Bigodes “ já more num telhado longe de mim!

Bom, talvez seja mesmo melhor ler uns poemas sobre gatos…




sexta-feira, 12 de julho de 2013

NOTURNO A LÁPIS






Rabisco no papel
um noturno de mar
à hora a que os olhos dos peixes despem a lua
e um búzio irrequieto se entrega às mãos da maresia
acordes silenciosos, simples traços de carvão…


terça-feira, 9 de julho de 2013

PARA QUEM QUER APRENDER COMO SAEM AS PRINCESAS E AS FADAS DAS HISTÓRIAS


( Imagem retirada da Web )


Lembro um dia em que os meninos me perguntaram; Como se tiram as Princesas e as Fadas das histórias?!

Espero ter-lhes mostrado como se faz!


sexta-feira, 5 de julho de 2013

PEIXES E MELROS NO JARDIM





...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.





Quem costuma passar por aqui já percebeu que temos um jardim onde acontecem coisas fantásticas. Talvez aconteçam coisas fantásticas noutros jardins, mas só posso falar das que acontecem por aqui.

E nesta semana de aulas que encerra hoje mais um ano letivo, as coisas fantásticas foram mais que muitas. Bom, foi um ano de coisas fantásticas… 

Começamos a semana a imitar os peixes. O calor intenso e imenso que se faz sentir, fez aparecer no jardim muitos peixinhos que passaram os dias em mergulhos e piruetas dentro da piscina. Não sei bem se tínhamos no jardim, um condomínio com piscina ou uma praia improvisada. Era como nos apetecesse e dava mais jeito aos peixes, ora eram peixes de água doce ou salgada. A verdade é que ficamos fresquinhos e nos divertimos imenso.

Mas falta falar da parte em que os peixes se misturam com os muitos melros que povoam as árvores do nosso maravilhoso jardim.

Numa brincadeira com bola descobrimos um ninho de melro numa das árvores.

E encantamento dos encantamentos, o ninho tinha três ovinhos. Para nossa surpresa era o pai que chocava os ovos! As fêmeas de melro são cinza acastanhado e não têm o bico amarelo.

Admiramos a magnifica arquitetura do ninho e fomos investigar sobre melros nos livros.

Sabíamos que em breve nasceriam os melrinhos e para não assustar os progenitores, eu fazia a monitorização diária do ninho e dava conta de novas aos peixinhos, (meninos). Tudo com muito cuidado, para deixar a natureza seguir o seu curso. Das primeiras vezes o pai melro ficava nervoso, mas depressa percebeu que só queríamos encantar-nos com o milagre da vida!

Ontem, depois destes dias de observação e espera, quando me aproximei do ninho vi o pai empoleirado numa pontinha deste, saltitou e cantou como se quisesse anunciar-me a boa nova! Um dos filhotes já tinha nascido! Tão pequeno e frágil mexia e esticava o pescoço como se tentasse chegar ao sol! Fiquei tão emocionada com o privilégio que corri a contar aos meninos. Ao final da manhã já havia outro irmão. O terceiro ovo só eclodiu hoje a meio da tarde. E partimos agora para férias com os olhos cheios de encantamento e maravilhamento. Todos com outros jardins à espera…


 



quinta-feira, 4 de julho de 2013

quarta-feira, 3 de julho de 2013

" ENTRE A ROTINA E A MARAVILHA "


( Imagem retirada da web )


Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.
Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha .
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.

(...)
 

                                                                                        Manuel Alegre