terça-feira, 11 de setembro de 2012

PÁSSARO COM CÉU ESCOLHIDO





De regresso à sala de aula, eu, que os meninos só virão no início da próxima semana.

Os meus olhos detêm-se na parede, onde ainda voa o pássaro multicolor que nos acompanhou desde o primeiro dia de aulas do ano anterior e que pintamos juntos. 

Na verdade, pintamos em conjunto um painel de onde mais tarde nasceria um pássaro, que voaria para a parede e que por vontade expressa dos meninos seria o único a permanecer na sala durante as férias. É verdade que durante o ano outros pássaros acompanharam este de que falo. Havia pequenos pássaros, peixes-pássaros, mas estes depois de terem voado no céu da sala de aula, fizeram no final do ano ninho nas capas que os meninos levaram para casa com os respetivos trabalhos e criações.

Quando nos sentamos para decidir o que fazer com o enorme pássaro, os meninos começaram por sugerir que cada um levasse um pedacinho do pássaro gigante para casa. Mas logo concluíram que sendo assim, o pássaro original desapareceria. Alguém ainda lembrou que podiam desenhar um pássaro mais pequeno do corpo do pássaro gigante, ideia que também não colheu grandes adeptos, pois também destruiria “o nosso pássaro.”

O melhor era o pássaro ficar na parede. Guardaria a sala e em setembro logo decidiríamos o seu destino.

A decisão dos meninos agradou-me. Confesso, que também a mim me estava a ser custoso tirar o pássaro do nosso céu. Afinal, quem partilhou o céu connosco merece ficar nele com um cantinho. Já basta quando não podemos manter no céu, no nosso, todos aqueles de que gostávamos!

O pássaro gigante olha para mim com quase a certeza que o seu céu será por ali. E eu, aguardo ansiosa a chegada dos outros pássaros da sala para que o céu desta se encha de novo de cores.

sábado, 8 de setembro de 2012

JOIAS DE FADA


                   ( Ilustração de Asako Eguchi)



As joias mais preciosas
para a fadinha do mar,
são tão-somente as conchinhas
que vai catando ao luar.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

HORA DE MAR



Na hora em que o sol perfuma o mar,
quem sabe chegues para molhar-me de estrelas!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

DEIXEI ESCRITO NA AREIA



Deixei escrito na areia
bordado a letra miúda
um recadinho pequeno
embrulhado de ternura.

Tem passinhos de gaivota
abraços de céu e mar,
pedras, búzios e conchinhas,
pedacinhos de luar.

Algas verdes perfumadas,
peixinhos cheios de cor,
nadando livres, felizes,
tal e qual o meu amor.


domingo, 2 de setembro de 2012

A MEMÓRIA E O MAR



La marea, en el corazón,
me zarandea como un cisne.
Me muero en cada canción,
de inocencia al aire libre.
Al fin un barco depende,
de cómo atraque en el puerto.
Mi firmamento se expande,
mil años luz, en lo incierto.

Soy el fantasma de luna,
que sale noches de escarcha.
Para abrazarte en la bruma,
y recogerte en su marcha.
En la almadraba de Julio,
lucia un atún solitario.
Que parecía rezar,
con las perlas de un rosario.

Recuerda el perro de mar,
que libramos de condena.
Empeñado en enterrar,
las algas sobre la arena.
Late allí también la vida,
con su pulmón de franela.
Llora el tiempo a la deriva,
frió gris que nos espera.

Me acuerdo de aquellas tardes,
corriendo sobre la espuma.
Como caballos salvajes,
las caricias una a una.
O ángel de placer perdido,
O rumor de aquella cumbre.
Mi deseo y poderío,
son nostalgia ya, de la lumbre.

Diablo de las noches blancas,
en su lento amanecer.
Espada del paraíso,
en el musgo del placer.
Vuelve niña de los valles,
vuelve violín de las parras.
Al puerto donde las calles,
cantan por los camaradas.

O raro perfume salino,
en el fuego de tu herida.
Yo iba ciego a mi destino,
como llama de amor viva.
En lecho fronda fiera,
al final me sonreías.
El azul de una vidriera,
y tu mi melancolía.

Las conchas de luces vuelas,
bajo mis pies se rompían.
Parecían castañuelas,
sonando por bulerias.
Ten piedad Dios de la piedra,
de su signo ornamental.
Cuando el cuchillo florezca,
su pecado original.

Yo notaba palpitante,
la vida que presentía.
Entre láminas de sangre,
de una antigua profecía.
Esa exactitud azul, sobre ese mar,
nunca en calma.
Que me devuelva la luz,
a la memoria del alma.

Ese rumor que allí brota,
ese sol que ahora me ciega.
Estas manos que están rotas,
rumiantes manos de avena.
Ese rumor me persigue,
como un mendigo anatema.
Como la sombra insiste,
en descifrar mi teorema.

Y como viento de Enero,
viene a golpear a mi puerta.
Ese rumor callejero,
como una música muerta.
Se hundió la mar,
se cabo la arena mala en la playa.
Como rebaño infinito, la mar pastora me llama,
como rebaño infinito, la mar pastora me llama.

Poema de Léo Ferré traduzido e cantado por Amancio Prada