domingo, 11 de dezembro de 2011

HISTÓRIA DE UM MENINO QUE NASCEU DENTRO DE UM LIVRO

Desenho feito pelo Gonçalo

            
 

Fechou o livro que estava a ler.

Não que não lhe apetecesse continuar a lê-lo, antes pelo contrário, quando gostava muito de um livro ela fechava-o de quando em vez e ficava quietinha. Era como se as palavras que acabara de ler fossem como chuva miúda que se vai entranhando lentamente no corpo refrescando-o.

Ela sempre fora apreciadora de chuva de palavras, daquelas palavras que ficam horas, dias e mesmo para sempre a bailar cá dentro.

O livro falava de um menino. Um menino que talvez nem existisse. Um menino que talvez só existisse porque depois do que acabara de ler ela quisesse muito que assim fosse!

Das histórias ela sabia que nem todas acabam bem. Também nem todas precisam acabar mal. Pessoalmente não apreciava as que terminavam assim-assim. As suas preferidas eram sem dúvida as histórias que não existiam. Ou quando muito só existiam dentro da sua cabeça!

Por isso fechara o livro e agora o menino da história era só aquele que ela quisera que fosse.

Um menino com um sorriso que ela nunca vira antes, um sorriso igual ao sol que ela costumava ver acordar devagar a praia e dourar de calor cada grãozinho de areia. Nos seus olhos havia sempre estrelas a brilhar mesmo que não tivesse chegado ainda a noite ou o céu estivesse carregado de nuvens. Da sua boca saiam palavras encantadas que tinham a cor da lua cheia e com as quais aquecia de ternura os corações de todos os que o conheciam. Dos seus cabelos feitos de espuma do mar saltavam peixes para o infinito. E das suas mãos soltavam-se conchas a cada gesto que iam traçando mapas pela beira do mar.

Atrevera-se a desenhá-lo na areia embora sabendo de antemão que uma onda o levaria…

Mas isso que importava se de dentro dela jamais alguém o levaria!

                                                

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CORAÇÃO VAGABUNDO



Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o quer
Meu coração de criança
Não é só lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Caetano Veloso

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

PÁSSARO SELVAGEM

                                                                     Nadir Afonso

 
Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente...
longamente...
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves

Isabel Meyrelles
In ‘Palavras Noturnas e Outros Poemas’


                                                            

domingo, 4 de dezembro de 2011

RITOS QUE ACOMPANHAM AS ESTAÇÕES




O outono da sua infância começava com os cheiros das compotas e da marmelada que as mãos de Ana e da Avó tornavam ainda mais doces!

Nas fruteiras do aparador da sala de jantar estavam os frutos que coloriam de sabor a sobremesa, as uvas de várias qualidades, as suas preferidas eram as, moscatel de Hamburgo de sabor adocicado e intenso e as Ferdinand Lesseps, brancas, sem grainha, com sabor a ananás! Havia ainda os dióspiros e as romãs.

Ao fim da tarde acendia-se a lareira e de quando em vez assavam-se castanhas que deixavam pela casa um cheiro quente de outono!

Não tardaria a chegar o dia da matança do porco. Ela sempre detestara esse dia, não percebia porque tinham de matar de forma tão bárbara o pobre animal. Nunca conseguira assistir a tal barbárie, tinha tanta pena do animal, até chorava o que irritava o Senhor João o caseiro, dizia ele que o seu carpir lhe atrasava a morte, ela desejaria que a evitasse, mas perante o facto consumado prometia não comer nada saído do porco.

Mas o que mais a fascinava no outono eram as cores. Os laranjas e vermelhos que vestiam as folhas das videiras e das árvores do jardim. Eram um regalo para a vista, pelo menos para a sua. Ela nunca se cansava de ficar horas a olhar as encostas do rio, do seu Douro, e pensar em com se sentia privilegiada por poder testemunhar tanta cor e beleza, era com se as cores das folhas lhe pintassem a alma e a aquecessem por dentro!

E nisto tudo pensou vagueando hoje pela cidade quando olhou as cores doutras árvores que não as do jardim da sua infância!







quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ESCUTANDO O VENTO...




Escutando no vento
Tua voz secreta
Que me sopra por dentro
Deixa-me ser só seu
No teu colo eu me entrego,
Para que me nutras
E me envolvas
Deixa-me ser só seu
Um ponto de luz
Que me seduz
Aceso na alma
Um ponto de luz que me conduz
Aceso na alma
Por trás dessa nuvem
Ardendo no céu
O fogo do sol raia
Eternamente quente
Liberta-me a mente
Liberta-me a mente
Um ponto de luz que me seduz aceso na alma
Um ponto de luz que me seduz aceso na alma

Sara Tavares