terça-feira, 19 de março de 2013

DESENHO DE PAI





Gostava tanto de poder desenhar-te Pai…

Desenhar-te, como fazia na escola primária

um desenho a acompanhar um versinho

que dizia querer-te mais que tudo no mundo!

Mas tu sabes da minha falta de jeito para o desenho.

Algo que não herdei de ti. 
 
Talvez nunca te tenha dito que em pequena dormia 

com os desenhos que me fazias debaixo da almofada.

Guardava-os como tesouros preciosos

como as histórias que me contavas

os livros que me ensinavas

os passeios que dávamos juntos…

Guardei de ti o sorriso

o amor à vida

às coisas pequenas que tornam grande o coração.

Tu sabes como sou avessa aos dias marcados para abraços

mas hoje quero que no meu abraço se desenhe 

tudo o que as palavras não precisam dizer.

segunda-feira, 18 de março de 2013

" PINTOS COM MUITA PINTA "





A maioria dos pintos pode até ser amarela…

Mas esta história de pintos começou em amarelo e terminou com pintos cheios de pintas! 


sábado, 16 de março de 2013

BARCO DE VOAR






Tenho um barco pequenino
que se chama solidão
e que mora de mansinho
dentro do meu coração.

Metade de branca espuma
a outra de azul do mar
os seus mastros são gaivotas
que me levam pelo ar.

Voa voa meu barquinho
como um cavalinho alado
leva-me pelas estrelas
mostra-me o céu encantado.

Que lindo o mar cá de cima
com xailinho de luar
navega agora barquinho
por hoje chega de sonhar!

quinta-feira, 14 de março de 2013

VENTO DE PRIMAVERA






Podem as árvores e os canteiros
vestir-se de flores
as borboletas flutuar
por entre o sol
e os pássaros entontecidos
confundir-se com o azul…

Não será primavera
enquanto não se soltar em mim
o vento que as tuas mãos guardam.

domingo, 10 de março de 2013

O DEUS DO QUINTAL DO AVÔ





A Avó já estava vestida de domingo e terminando o pequeno-almoço comunicava ao Avô a sua intenção de ir à missa. A Avó desejava que o Avô a acompanhasse, mas este nunca o fazia. Ouvia-o sempre argumentar, que não precisava de procurar Deus na igreja, o seu Deus todo-poderoso, morava no quintal. Via-o por entre as videiras, as flores, a cerejeira, o pessegueiro…

Segundo o Avô António, Deus não gostava de espaços fechados e maravilhava-se tanto quanto ele, com as transformações que a natureza operava no seu quintal.

Que Deus não apreciaria passar uma manhã de domingo, ouvindo as águas do pequeno ribeiro que passava ao fundo do quintal. Ver os saltinhos da água afagando as pedras, numa música original e harmoniosa que só podia ser ouvida ali mesmo, no quintal do avô. No ribeiro, costumavam ainda namorar libelinhas e em noites de verão ouviam-se concertos de rãs. Eram tão afinadinhas as rãs do ribeiro… Lembra-se de tantas vezes-lhe terem embalado o sono. E provavelmente também ao Deus do quintal.

E como era bom ver a manhã chegar ao quintal. O sol infiltrava-se pelo imenso emaranhado de videiras e árvores de fruto, iluminando-lhes as folhas e os troncos e enchendo tudo de espanto. E quando o sol expulsava definitivamente o frio da noite, apareciam pássaros deslizando pelos céus em enorme chilreada. 

No quintal do Avô António, não morava nenhum espantalho. O Avô queria os pássaros nas árvores e não se importava se estes debicavam as cerejas, as ameixas, os figos… Achava graça às lesmas e caracóis que vestiam de rendas as couves e as alfaces e adorava descansar os olhos nas filas de flores coloridas que pontilhavam os canteiros, tal qual o deus que lhe venerava o quintal.