terça-feira, 21 de junho de 2011

O chapéuzinho

(chapéu feito pelos meninos)


A menina comprou um chapéu

E pô-lo devagarinho:

Nele nasceram papoilas,

Dois pássaros fizeram ninho.

Chapéu de palha de trigo

Que a foice um dia cortou:

Na cabeça da menina

O trigo ressuscitou.

Depois tirou o chapéu,

Tirou-o devagarinho,

Não vão murchar as papoilas

Não se vá espantar o ninho.

E, chapéuzinho na mão,

De cabeça levantada,

A menina olhou o sol

Como a dizer-lhe: Obrigada!


Matilde Rosa Araújo


domingo, 19 de junho de 2011

Há Canções Que São Como Livros


Tenho uma imensa dificuldade em lidar com imitações e a mediocridade irrita-me de sobremaneira. Detesto os que tentam vender-me o mundo a prestações, o deles claro!

Não gosto de gente com pré conceitos e cheia de preconceitos, olhares formatados e obtusos…

Porque o que o meu olhar vê pode ser só meu e ninguém tem nada com isso.

Mas às vezes, descobrimos olhares em outros, que vá-se lá saber porquê sentimos como nossos e que apetece partilhar.

Como o olhar desta canção de Amélia Muge.

Dona de uma voz diferente e por isso impossível de imitar. Voz que não se adapta aos formatos em vigência. Aos formatos do mau gosto, do berro cantante, do poema sem nexo e conteúdo, desses que vão passando insistentemente e diariamente nas nossas rádios.

Dela, uma canção que bem podia ser um livro. Porque há canções em que gostamos de ler como livros e onde descobrimos olhares que são tão nossos!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O relatório que ninguém vai ler


Sempre que me vêem a escrever os meninos perguntam se estou a escrever um “ralatório”.

E nunca a palavra inventada foi tão bem empregue, é que os ditos cujos são efectivamente uma ralação e a parte muitas vezes dispensável da profissão. Às vezes o sistema pede um relatório do relatório, para nos levar à certa muda-lhe o nome e chama-lhe avaliação do trabalho realizado, e eis que repetimos várias vezes por outras palavras a mesma cantilena.

E está tudo formatado, claro!

De quando em vez, alguém se lembra de fazer umas alterações, afinal fica sempre bem complicar mais um pouco, dá uma certa credibilidade e umas palavras mais eruditas ainda que fora de qualquer contexto educativo, marcam sempre a diferença!

Meus amigos, não há como escapar é que os dossiês ficam tão compostinhos e bonitinhos nas prateleiras de qualquer Direcção Executiva que se preze.

Sempre que tenho de escrever um destes relatórios, escrevo outro que nunca ninguém lê e quando hoje tive de avaliar a evolução ou não dos meus meninos, estive tentada a contar o que aconteceu na realidade!

Tudo aquilo que os meninos me ensinaram e a forma espantosa como continuam a fazer-me crescer…

Longe vão os dias em que desconfiados e orquestrando por vezes em uníssono umas sinfonias para choro e grito, nos fomos tornando amigos, havia até os mais destemidos que por vezes exercitavam os meus dotes de corredora de fundo, quando sem aviso abriam a porta da sala e resolviam procurar os pais!

Eram tão pequeninos, os mais tímidos pareciam a minha sombra.

Todos esperavam a minha ajuda para procurar o lanche, tirar o casaco, apertar e desapertar, enfim, para fazer as coisas que a nós adultos nos parecem tão fáceis mas que foram num tempo longe grandes conquistas.

Eu era a “puxôra Teza Maía”, o Afonso gostava de “Firafas”, (girafas), e às vezes no muro da escola aparecia um “Fafanhoco”, (gafanhoto) …

Hoje os meninos pronunciam correctamente as palavras, sabem palavras novas, mas o importante é que gostam de inventar palavras, de contar histórias, de ouvir histórias, sabem escolher nos livros da biblioteca as suas histórias preferidas e sabem o nome dos que escrevem as suas histórias de eleição.

Decidem sozinhos o que vão fazer, como vão fazer, o que precisam o que é dispensável e sabem que têm de fazer sempre muitas perguntas, e que quando parece que estamos todos de acordo há sempre alguém que viu mais, diferente, e por isso uma coisa nunca é mas está sempre a ser.

Inventaram cores, e descobriram o quão bom é quando entornamos as nossas cores e as misturamos todos juntos…

Pintaram a manta, o infinito…

Desenharam-me sorrisos. Com eles aprendi numa manhã de Inverno a fazer rendinhas de gelo, fiquei a saber, que os peixes do aquário da sala namoram e que gostam da música que ouvimos, pois põem as orelhas fora de água para ouvir melhor!

Que o mar se pode transportar numa galocha! Que podemos inundar a sala de azul de mar de céu, de amar!

Que podemos navegar sem barco, sem mapas, sem margens e sempre que decidirmos, podemos ficar à margem…

Confesso, obriguei-os a serem felizes e obriguei-me a sê-lo!

Acho que a isso se chama CRESCER! E acho que escrevi quase tudo do que não pode constar de um “ralatório”!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma história saída do armário



Esta é uma história verdadeira que só por mero acaso faz parte da minha história.

E todos sabemos que algumas das histórias que fazem a nossa história nunca chegam a passar à história! Umas vezes porque não queremos que passem, outras porque por mais que tentemos teimam em não nos largar. E quando pensamos que nos livramos delas…

Em casa dos avós o meu quarto tinha um armário de sacristia que habilmente minha mãe transformou em casa de bonecas. Quando as portas do armário se abriam o sonho punha-se ali a viver…

Curiosamente hoje quando abri o armário este contou-me outra história…

A história de uma menina que tem pavor de foguetes! Sim, desses foguetes em que são férteis as festas e romarias de Portugal!

Todos os anos na festa da padroeira cá da terra além da quantidade de foguetes que inundam o céu de fumo e ruído durante o dia, pela noite realiza-se o famoso arraial do rio.

Durante uma hora são lançados aos céus um sem número de foguetes cujas cores e feitios variados abrem de espanto os olhos e bocas de todos quantos têm dificuldade em inventar estrelas, das verdadeiras claro!

O espectáculo pode ser esteticamente muito belo, mas para quem mora à beira rio é ensurdecedor e aterrorizador. E era nesta parte da festa que eu, e “Drake”, o pastor alemão lá de casa com nome de pirata inglês, rumávamos ao armário e aí ficávamos até ao término do arraial! Confesso que não sei quem tremia mais, se eu ou o cão, mas o armário era completamente estanque ao ruído e dentro dele todos os foguetes do mundo deixavam de ter importância.

Ah! Se hoje durante o arraial rumo ao armário?

Pois, confesso que faço tudo para não estar por perto durante as festas, mas se não puder evitar, coloco os phones com o som da minha música bem alto.

Tal como antes continuo a pensar no que dirão os pobres dos peixes de tamanha estupidez humana! E continuo a tremer de medo!

Um medo terrível que me põe os nervos em franja e não consigo explicar!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

sexta-feira, 3 de junho de 2011

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Livros à altura dos leitores


Não, não vou falar de Livros e Não livros.

Deixo que sobre o assunto se debrucem os que fazem Não Livros e que como passatempo tecem as mais variadas e por vezes malévolas, criticas (dizem eles), sobre os que são Verdadeiros Livros. Deixá-los lá exercitar a Mediocridade!

Vou só falar de uma feira do livro especialíssima a que fui com os meninos.

E nesta altura poderão os que me lêem perguntar-se o que tinha esta feira de tão especial.

Posso dizer que, tinha Muitos Livros e alguns Não livros. Até aqui nada de especial.

Todas as feiras do livro que se prezem têm Livros e Não livros!

Afinal em democracia temos de agradar a todos! E contra isso… Muito poderia argumentar, mas confesso, não me apetece!

Porque o que me apetece perguntar, é porquê que as feiras do livro ou os que as organizam têm tão pouco respeito pelas crianças?!

Dei no fim-de-semana um pulo até à feira do Livro do Porto com os meus filhos e sobrinhos, e pude constatar da dificuldade dos mais pequenos em conseguir chegar aos livros para fazer o que nós adultos que gostamos de ler fazemos, sentir o livro, cheirá-lo soltar-lhe as páginas…

Ora com as bancas a um metro e meio do chão nenhum menino conseguirá ver sequer a capa dos livros, quanto mais tocar-lhes!

Além de não chegarem aos livros, as crianças ainda tem de levar, com” umas pessoas vestidas de bonecos”, para usar a definição do meu sobrinho João, que fugiu a sete pés do abraço forçado que estes tentavam impingir-lhe! Quando é que esta gente percebe que os meninos não apreciam esta forma de contacto com os personagens!?

E já para não falar dos supostos contadores de histórias, sem jeito, graça e encanto.

Eu sei, todos precisamos de ganhar a vida. Mas por favor, gastem o dinheiro com inteligência, respeitem os Livros e acima de tudo, respeitem os Pequenos Leitores!

E foi esse respeito, pelos Livros e pelas crianças, que encontrei na Feira do Livro de Lordelo.

Pela primeira vez, vi bancas de livros à medida dos meninos. Vi a alegria com que tocavam nos livros, alguns abraçavam-se mesmo a eles! Não havia sofás coloridos, mas ninguém pareceu sentir a sua falta quando a Fátima e a Rosário encantaram todos ao contar a história de um Coelhinho muito desarrumado e trapalhão.

Porque nos proporcionaram uma Manhã de Encanto e descobertas, vai um beijinho dos meninos e meu, para as maravilhosas anónimas contadoras de histórias.

E cabe ainda fazer um agradecimento à Fundação ALORD, organizadora da feira tendo ainda disponibilizado de forma totalmente gratuita um dos seus autocarros para nos transportar até Lordelo.