segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Maria Estrela



Houve um tempo em que também eu fiz parte da lista de professores que no inicio do ano letivo não tinha escola para lecionar…

Ao fim de vinte anos de carreira inacreditavelmente eu não tinha escola!

Confesso que não gosto muito de recordar essa época e só o faço porque quero lembrar uma grande amiga e pessoa que em muito influenciou a minha prática pedagógica.

Estive nesse ano sem lecionar até fevereiro, altura em que fui chamada para substituir uma colega que estava de atestado de longa duração. Uma doença progressiva e incapacitante impedia-a de estar na sala de aula e obrigava-a amiúde a apresentação em junta médica até que alguém decidisse aposentá-la…

A diretora executiva do Agrupamento, na altura “Presidenta”, pediu-me alguma paciência pois a colega que iria substituir costumava aparecer na sala e poderia atrapalhar o meu trabalho! 

Tão contente estava por voltar a ter turma que nunca mais pensei na colega, até ao dia em que…

Mal tínhamos acabado de entrar na sala, os meninos acomodavam-se nas cadeiras e havia bastante bulício, de repente todos se levantaram e correram para abraçar e beijar uma mulher pequenina que a mim me parecia saída de uma história encantada. Não sei o que me chamou nela mais à atenção, se o colorido das suas roupas, se a farta cabeleira preta, se os magníficos e expressivos olhos azuis, brilhavam tanto que por momentos a sala pareceu ter uma luz diferente. A forma como mimava e era mimada pelos meninos deixou-me maravilhada, era evidente que se tratava de um encontro de amigos que eu não ousava interromper.

Pediu então aos meninos que voltassem para os seus lugares e dirigindo-se a mim estendendo a mão direita disse:

- Olá, eu sou a Estrela! Maria Estrela e estes pequenos são amigos que gostava de visitar de vez em quando se não te importares!

Importar-me, depois das demonstrações de ternura a que tinha assistido ficou claro que Estrela (nunca um nome fizera a meu ver tanto jus à pessoa), precisava dos meninos e eles dela. Porque haveria eu de ser obstáculo à sua ternura?!

Em pouco tempo nos tornámos grandes amigas. Estrela aparecia sempre que a doença o permitia para minha felicidade e dos meninos.

Adorava embrulhar-nos nas suas histórias, o seu jeito de contá-las era tão encantado que conseguia mesmo empurrar-nos para dentro delas! E como brilhavam os seus olhos…

Quando não podia visitar-nos eu e os meninos íamos até a sua casa e enquanto eu e os pequenos brincávamos no seu enorme jardim ficava a ver-nos da janela do quarto sempre sorrindo.

Substitui Estrela durante três anos, altura em que mudei de escola e finalmente também alguém decidiu que Estrela estava mesmo doente e seria aposentada por invalidez. 

Por esta altura Estrela já raramente conseguia ir até à escola. Eu e os meninos continuávamos a visitá-la e a mima-la sempre que era possível.

O trabalho de pareceria que desenvolvi com Estrela foi tão enriquecedor que vou estar-lhe eternamente grata, mas o que não vou mesmo esquecer é a forma como amava a profissão e os meninos, a sua ternura e doçura acho mesmo que as copio.

Estrela partiu um dia destes para o infinito ou quem sabe mais além, mas o seu brilho nunca se apagará dos corações daqueles que puderam conhecê-la…

5 comentários:

Anónimo disse...

linda homenagem..que acabei de ler........

eu

Ana disse...

Com o que descreveu consigo ver a "Maria estrela". Pequenina. Contudo grande, grande,...
A professora Teresa é o seu reflexo. Grande, grande! Obrigada por ser educadora. As crianças precisam de pessoas assim como é. Existe mais uma pessoa igual: a Professora Alexandra.

xn disse...

Só hoje vi os comentários e que feliz fiquei,pelo enorme elogio que recebi! bjs

Anónimo disse...

Com alma marítima assim, bem pode estar descansada a Estrela, esteja em que Oceano estiver.
Comovidamente lindo o que escreveu, cara colega Teresa.

Diana Moreira disse...

Fiquei emocionalmente tocada pelas palavras e homenagem que prestou a essa sua colega, consigo ver que assim como a "Estrela", também a professora Teresa é brilhante naquilo que faz, assim sendo fico muito feliz por ser Educadora da minha filha Matilde, sinto que ela está em boas mãos. Obrigada