quinta-feira, 13 de setembro de 2012

COMO FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO



“Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert com ilustrações de Mordicai Gerstein
Faktoria de Livros / Kalandraka, 2011


 
Para fazer o retrato de um pássaro
Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.


(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

PÁSSARO COM CÉU ESCOLHIDO





De regresso à sala de aula, eu, que os meninos só virão no início da próxima semana.

Os meus olhos detêm-se na parede, onde ainda voa o pássaro multicolor que nos acompanhou desde o primeiro dia de aulas do ano anterior e que pintamos juntos. 

Na verdade, pintamos em conjunto um painel de onde mais tarde nasceria um pássaro, que voaria para a parede e que por vontade expressa dos meninos seria o único a permanecer na sala durante as férias. É verdade que durante o ano outros pássaros acompanharam este de que falo. Havia pequenos pássaros, peixes-pássaros, mas estes depois de terem voado no céu da sala de aula, fizeram no final do ano ninho nas capas que os meninos levaram para casa com os respetivos trabalhos e criações.

Quando nos sentamos para decidir o que fazer com o enorme pássaro, os meninos começaram por sugerir que cada um levasse um pedacinho do pássaro gigante para casa. Mas logo concluíram que sendo assim, o pássaro original desapareceria. Alguém ainda lembrou que podiam desenhar um pássaro mais pequeno do corpo do pássaro gigante, ideia que também não colheu grandes adeptos, pois também destruiria “o nosso pássaro.”

O melhor era o pássaro ficar na parede. Guardaria a sala e em setembro logo decidiríamos o seu destino.

A decisão dos meninos agradou-me. Confesso, que também a mim me estava a ser custoso tirar o pássaro do nosso céu. Afinal, quem partilhou o céu connosco merece ficar nele com um cantinho. Já basta quando não podemos manter no céu, no nosso, todos aqueles de que gostávamos!

O pássaro gigante olha para mim com quase a certeza que o seu céu será por ali. E eu, aguardo ansiosa a chegada dos outros pássaros da sala para que o céu desta se encha de novo de cores.

sábado, 8 de setembro de 2012

JOIAS DE FADA


                   ( Ilustração de Asako Eguchi)



As joias mais preciosas
para a fadinha do mar,
são tão-somente as conchinhas
que vai catando ao luar.


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

HORA DE MAR



Na hora em que o sol perfuma o mar,
quem sabe chegues para molhar-me de estrelas!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

DEIXEI ESCRITO NA AREIA



Deixei escrito na areia
bordado a letra miúda
um recadinho pequeno
embrulhado de ternura.

Tem passinhos de gaivota
abraços de céu e mar,
pedras, búzios e conchinhas,
pedacinhos de luar.

Algas verdes perfumadas,
peixinhos cheios de cor,
nadando livres, felizes,
tal e qual o meu amor.