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domingo, 25 de julho de 2010

MERGULHAR NA RELVA...



Adoro o Verão.
Dos dias e noites longas. Onde há tempo para ter tempo.
Da casa sempre cheia de gente. Tal e qual como na infância.
São, os primos, as manas, os sobrinhos, os filhos, os amigos, os amigos dos filhos, os amigos dos amigos…Gente e mais gente, que dá vida à casa que durante o resto do ano está quase sempre vazia!
No Verão, a casa ganha vida, como no tempo dos avós. E ninguém se atreve a procurar destino de férias sem passar por cá!
Pedro, o meu sobrinho de quatro anos, fez-me há dias uma pergunta curiosa;
-Tia, o que gostas mais no Verão é da casa da Avó?
Fiquei espantada! Tão bem o pequeno lia minha alma!
Para falar verdade, não sei do que gosto mais neste lugar. Da casa? Das memórias de uma infância e adolescência privilegiadas? Da paz que me invade sempre que aqui estou? Do rio, junto ao qual cresci e que um dia me levou até ao mar? Das árvores, que subi na esperança de conseguir tocar o céu? De olhar o sol a levantar-se por entre as águas do rio, ou a mergulhar nelas ao entardecer? De olhar o céu infinito, ponteado de estrelas? De escutar uma cantata para grilos em noite de lua cheia?
Adoro tudo isto! Mas do que gosto mesmo, é de mergulhar na relva!
O cheirinho a verde misturado com o perfume das várias ervas e flores invade o ar, fixando-se de tal forma na alma, que sentimos como que um desejo irresistível de ficar ali a adorar a natureza!

domingo, 11 de abril de 2010

Cecília, o Douro e Eu





Infância
Levaram as grades da varanda
por onde a casa se avistava.
As grades de prata.


Levaram a sombra dos limoeiros
por onde rodavam arcos de música
e formigas ruivas.


Levaram a casa de telhado verde
com suas grutas de conchas
e vidraças de flores foscas.


Levaram a dama
e o seu velho piano que tocava,
tocava, tocava a pálida sonata.


Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
deixaram somente a memória
e as lágrimas de agora.

(Cecília Meireles)


SAUDADE

Na areia do Douro, orvalhada de ouro,
menina Olinda, era lindo brincar.
Transparentes peixes, translúcidos seixos
entre os nossos dedos vinham desmaiar.


Por negras colinas, trepavam as vinhas,
menina Ondina,
muito longe de nós.
Dentro das figueiras, vozes zombeteiras
armavam espelhos para a nossa voz.



Os barcos rabelos carregavam pelo
rio sossegado seus largos barris.
Ah, na areia clara quem sempre ficara,
menina Ondina,
pastoreando as ondas, pastora feliz!

Doce era a cantiga das manhãs antigas,
menina Ondina!
Pela névoa sem fim,
vinha o carpinteiro,
com brancas madeiras
talhar barcas novas, iguais a marfim.


Neblinas tão vastas, areias tão gastas,
menina Ondina!
E no meu coração
caminhos tão longos para a água dos sonhos,
longos como a areia dourada do chão. . .

E o rio corria, transportando o dia,
menina Ondina,
para o escondido mar.
Levava esquecidas também nossas vidas,
com os peixes, os seixos e as coisas, divinas
que morrem sem se acabar. . .

Cecília Meireles