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domingo, 26 de julho de 2015

ESPREITO A MEMÓRIA DAQUELA QUE FUI...





Espreito a memória
da menina que fui…

Correndo livre
nas margens de um rio
que julgava meu!

Da menina
que prendia nos juncos
sonhos para o vento desatar…

Espreito a menina…

que pintava peixes
para  lhe mergulharem
as águas revoltas dos cabelos…

Que colocava nas águas
o chapéu a navegar
julgando-se capitã de barco…

Espreito a menina que fui…

Porque há dias
em que espreitar memórias
nos faz tão felizes!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

" AS RÃS MORAM NO JARDIM DA CASA DOS PEIXES "





Mãe:

- Compra-me um jardim para morar!

Um jardim com flores, muitas…

 Da cor do sol, da lua…

Há flores da cor da lua?

E tem de ter um lago

com peixes cor de ferrugem

a nadar por entre as folhas dos nenúfares

onde as rãs têm casa…

Quem disse que as rãs não moram nas folhas dos nenúfares?

As rãs moram no jardim da casa dos peixes!

E eu, quero morar no jardim da tua casa…

Da nossa casa, porque somos uma família.

- Vá lá Mãe! Compra-me um jardim para morar!

           
        Para a minha filha, M, que um dia me ensinou onde moram as rãs e continua a querer um jardim para morar…


quarta-feira, 6 de março de 2013

COISAS DA MINHA ESCOLA





Depois de ter visitado a” minha escola” com os meninos, prometi-lhes que levaria para a “nossa escola”, alguns dos objetos que utilizava. Outros nem tanto.
Eu sou “antiga”, mas nunca escrevi com aparo. Na minha escola já se utilizava esferográfica. No entanto, guardo com ternura os aparos que encontrei em casa de meus avós e outros que vou comprando aqui e ali. Manias! Curiosamente este foi de todos os objetos, aquele que os meninos mais apreciaram…


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Finalmente Natal





Dezembro tinha chegado finalmente e em breve os cheirinhos e os sabores tão desejados do Natal.

O Natal da minha infância começava com quinze dias de antecedência. A casa enchia-se de cores, eram os arranjos sobre as mesas e os aparadores que as mãos da Avó esculpiam como verdadeiras obras de arte.

A árvore de ramos verdes e agulhados, que quase chegava ao tecto da sala e da qual pendiam bolas coloridas, pássaros dourados, bonecos de neve, palhacinhos, cornetas... E o presépio, preparar o presépio era o ritual que eu mais gostava. As crianças da casa iam com o Avô buscar o musgo ao jardim, este era colocado em cestinhos que cada qual levava para depois ser distribuído pelo chão da sala, onde juntos construiríamos a verdadeira história do Natal.


Lembro que no meu cesto vinha sempre pouco musgo, costumava perder-me com pedrinhas, flores raras e cogumelos. Aos cogumelos achava-os fascinantes, pareciam chapéus-de-sol ou de chuva, quem sabe protegiam seres mágicos… Houve até um ano em que um dos meus cogumelos ficou a proteger o Menino Jesus. O Avô achava piada às minhas invenções e eu penso que foi o presépio mais bonito que fizemos.

Mas o que eu gostava mesmo era de colocar a banda de música perto da cabana do menino. Parecia-me tão bonita a ideia de o nascimento de alguém ser festejado com música. A banda tinha um músico que tocava realejo a sério, era tão bonita aquela música…era como se traçasse um caminho para o sonho, a verdadeira essência da vida. Parece-me ainda ouvi-la, vem de um tempo longe, muito longe.

Como longe estão alguns dos que muito me amaram.


Todas as mãos que destinavam, cores, cheiros e sabores ao meu Natal, tinham desaparecido num tempo já passado. As da Avó e da Ana que tinha mãos de fada para a doçaria. Mãos que sabiam de bolos e doces cujos sabores estão já arrumados na memória. O bolo de figo, os formigos e o arroz doce os meus preferidos, ninguém sabia faze-los como Ana. Os doces iam sendo distribuídos pelos aparadores, intervalados com ramos de azevinho e pratinhos com gomos de tangerina dispostos em forma de meia-lua, estes seriam para acidular de vez em quando as doçuras.

Depois vinham os primos, os tios, os amigos, finalmente era Natal. Que saudades de tudo aquilo, das corridas pela casa, das brincadeiras, das canções tocadas pela Avó ao piano… Onde estava tudo aquilo?

Aquela felicidade da menina que fora…

domingo, 12 de dezembro de 2010

Adorava Chapéus




Hoje quando colocava na cabeça uma boina para passear à beira mar, a Mãe comentava o facto de eu adorar chapéus e boinas desde sempre. Segundo ela, talvez das poucas coisas que tenha conseguido “vestir-me”, sem que eu refilasse e arrancasse!


Aproveitou então para contar que eu detestava vestidos, adereços no cabelo e sapatos! Que normalmente mudava de roupa umas três a quatro vezes por dia, pois nem quando ficava de castigo sem sair do quarto conseguia manter-me limpa e arranjada!

Sempre que ia brincar para o jardim regressava a casa parecendo que tinha sido atacada por uma matilha! Parece que gostava de subir às árvores, rebolar na relva, enfiar-me na lama do rio… tudo actividades nada próprias para uma menina, segundo a Mãe claro!

Na verdade eu não tinha nada contra a roupa que me vestiam só mesmo contra a falta de jeito que tê-la vestido dava para o que eu gostava de fazer! Mas aos chapéus adorava-os, lembro-me até de ter decidido que, quando fosse grande, havia de os usar com véuzinhos sobre os olhos, para lhes aumentar o mistério e o encanto.

Tolices. Quem poderia adivinhar que ao tornar-me grande os chapéus tinham caído em desuso.