sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

DUENDES…






(...)

Vem deles esta mágica

da vida, este lindo

e desejado frêmito

de ser duplo e sozinho,

de estar longe e estar próximo,

de estar dentro e estar fora:

ser cadência de música,

ser distância na história.


                                            Gilberto Mendonça Teles

domingo, 13 de dezembro de 2015

JARDIM COM UM PÉ NO INVERNO





Quem ouve agora a chuva e o vento

Nunca diria que ainda ontem

O jardim era um jardim de calma e silêncios…

Silêncios de folhas a rodopiar entre céu e chão…

De lagos escuros e frios que guardam peixes adormecidos

E onde só algumas folhas ousam ser barcos…

Este é um jardim com um pé no inverno

Mas há uma magnólia florida!

As temperaturas altas fora de época devem ter apressado a floração…

Foi uma descoberta maravilhosa 

E eu queria tanto contar-te

Que há uma magnólia florida no silêncio do jardim…

Mas agora chove…

E eu nem sequer sei onde estás…



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

UM DIA TUDO HAVERIA DE MUDAR...




AVÔ


A casa já não respira como dantes…

À nossa espera só a memória dos abraços e beijos espalhados na hora da chegada…

Eu sei, um dia tudo haveria de mudar… E nós, também nós haveríamos de mudar…

Alguns mudariam tanto que a casa não mais os sentiria a ficar, apesar dos risos e vozes tatuados nas paredes e de no soalho ecoarem ainda passos da infância…

Vim para fazer a árvore de natal… A Aurora ligou-me, não queria mexer em nada sem o meu consentimento, não fosse partir-se alguma coisa…

Na verdade, acho que foi uma maneira de arrastar-me até aqui… 

Não tem sido fácil….

Desde a morte do tio Manuel que tinha evitado voltar, a casa está mais vazia e fria, apesar do lume vivo que vai crepitando na lareira…

A árvore de natal e presépio estão agora nos lugares de sempre, da cozinha vem até um cheirinho a limão e canela…

E eu espero …

Espero os natais que hão-de vir mesmo sabendo que vou estar cada ano mais triste…

domingo, 6 de dezembro de 2015

A IMPORTÂNCIA DE MORAR NUMA CASA PENDURADA NUM RAMO DE AMORA SILVESTRE…





Foi já de regresso a casa, depois de um passeio pelo jardim para ver a manhã levantar-se e ainda embrulhada num nascer de sol suave… Que viu pendurada num ramo de amora silvestre uma teia de aranha repleta de pérolas de orvalho…

Uma aranha que resolveu construir casa num ramo de silêncio a cair para o rio…

Talvez convenha dizer que este é um jardim no fim do outono e que dos ramos o verão levou todas as amoras... Amoras substituídas por pérolas de orvalho…

Que o sol colorirá e apagará mil vezes, até que voltem de novo amoras ao ramo…