quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

LAGO EM TARDE DE FIM DE OUTONO





No lago
recolhem ao fundo os peixes
como que adormecidos
e com as últimas folhas
também o outono
mergulha nas águas.
Só à superfície
um pato tenta prender o sol
para apagar o frio.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

HISTÓRIAS QUE SÓ ACONTECEM NO MEU JARDIM






Ainda o sol não tinha derretido o orvalho da manhã e no jardim já não se falava de outra coisa. A história de amor entre o pé de maracujá e a oliveira! No canteiro das dálias só se ouviam cochichos;

- Não sei que terá visto nela. Afinal nós somos muito mais belas e elegantes. Diziam invejosas!
 
As margaridas por seu lado, achavam esta uma história de amor linda. É verdade que o jardim já conhecera outras histórias de amor, mas nunca nenhuma outra deixara o jardim tão em polvorosa.

Aliás, este era um jardim onde tudo decorria apesar das pequenas histórias, sem grande história.

As dálias viviam no seu canteiro e não havia memória que alguma vez tivessem ousado apaixonar-se pelos amores-perfeitos. É verdade que as margaridas costumavam sair para jantar com um ou outro mal-me-quer, as rosas amarelas tomavam chá com as rosas brancas, as vermelhas… às vezes lá se passeavam com os cravos.

Ouvia-se até dizer, que um dia uma bela rosa encarnada se apaixonara perdidamente por um antúrio, mas as famílias descobriram e proibiram que fossem felizes. E no jardim toda a gente, quer dizer, todas as flores, árvores e plantas acharam normal!

E esta que podia ter sido uma grande história de amor, não passou afinal de uma história vulgar, uma história em que uma rosa e um antúrio decidiram ser infelizes para sempre!

Podiam ter sido felizes enquanto durasse, mas não tiveram a coragem do pé de maracujá e da oliveira, que apesar das más-línguas de todo o jardim ou quase todo, resolveram perder-se de amores e viver juntinhos pelo menos até ao fim do inverno.




sábado, 1 de dezembro de 2012

O MAR É A MINHA CASA


( Tatiana Deviy )



No meio de mim

há uma casa

caiada de espuma

com janelas de vento

e um jardim

plantado de peixes

e conchas de mil cores 

onde pousam caranguejos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O RIO ONDE NASCI





A Mãe contara-lhe que nascera com um pezinho no rio…

Veio mais cedo do que o esperado por todos. Numa manhã de outono cedo, muito cedinho.

Logo ela que detestava madrugar! A não ser, claro, por uma boa causa!
Ver nascer o sol, por exemplo! Ora aí está o que considerava uma boa causa!

Talvez por isso tivesse decidido nascer cedo, provavelmente tinha querido ver o sol nascer. E a Mãe também lhe contara, que o amanhecer desse dia tinha acontecido o mais maravilhoso que recorda…

Um sol radioso ia invadindo a casa e o quarto onde começaria a sua história.

Lá fora a manhã acordava o rio e ela acordava a casa!

Quando chegou ao quarto para observar a Mãe, o Avô fez saber que esta já não teria tempo de chegar ao hospital e entre a aflição da Avó e de Ana e o telefonema para Dona Sofia, a enfermeira parteira que sempre assistia o Avô, ela resolvera fazer o que lhe competia, simplesmente nascer!

Nascer, paredes meias com o rio que a veria saltitar-lhe as margens, ouvir-lhe as rãs e os saltos dos peixes nas noites em que o verão vinha lavar estrelas nas suas águas.

O rio que a levaria nos seus longes do alto da varanda…

O rio de trabalho que se habituara a ver e onde hoje se encostam cansados os barcos que já não sabem sonhar!