terça-feira, 10 de julho de 2012
" SEMPRE DESEJEI QUE O MEU REINO FOSSE O DA DISSONÂNCIA "
( Graham Franciose )
Aos pássaros que gorjeiam prefiro os que grasnam
como os corvos ou os que piam na escuridão
como as vigilantes corujas brancas que infestam os meus
bosques.
O canto melodioso amolece os corpos
e anestesia as almas que renunciam à reflexão e ao tormento
e temem o rumor do dia predatório.
Sempre desejei que o meu reino fosse o da dissonância:
do gavião que, pousado na estaca, rumina a sua impiedade,
dos pássaros grasnantes que incomodam os partidários de uma
regência musical do mundo
como se estivéssemos num teatro, ouvindo uma sinfonia.
Ao gorjeio que conduz ao deleite e embala o sono
oponho o grasnido que semeia
a insônia e o desconforto.
Lêdo Ivo
domingo, 8 de julho de 2012
MANHÃ DE DOMINGO COM PRESSA DE MAR
A cozinha estava quieta, mas
conseguia sentir o cheirinho a café e torradas que inundavam a casa nos
domingos da sua meninice.
Gostava de levantar-se cedo para gozar o silêncio com
que a casa se vestia aquelas horas da manhã. Só mesmo Ana se levantava primeiro,
talvez adivinhando-lhe os pensamentos e impedindo-a de sair para a praia sem
pequeno almoço.
Era-lhe impossível arredar pé da
cozinha sem comer pelo menos uma torrada e beber uma enorme caneca de leite.
Engolia tudo com uma avidez
impressionante. Tal era a pressa que tinha de mar!
Como noutras manhãs de verão, a nortada
varria a praia e deixava- a só com o mar.
Navegava com os olhos o azul das águas misturando-se
com os carneirinhos que o vento fazia nascer por toda a parte voltando à
beirada onde novelinhos de espuma cresciam para que pudesse tricotar a mantinha
que lhe cobriria o corpo.
terça-feira, 3 de julho de 2012
COISAS DE MIM E DE FORMIGAS
( Ilustração de Francisca Bustamante)
Que aborrecimento!
Agora que já ia na formiga número
trinta, Ana resolvera chamá-la para o almoço!
- Venha menina. Deixe lá as formigas!
Depois do almoço e da sesta continua a contagem!
Almoço e sesta! A parte do dia que
mais detestava! Sim, sabia que tinha de comer e dormir, só tinha pena das
coisas que perdia entretanto.
Desde manhã que observava o
formigueiro que nascia no chão e entrava no tronco da sua cerejeira!
Em filinha, como só as formigas sabem
carregavam para cima e para baixo sem nunca parar ou distrair.
Por vezes
chegava a pensar que as formigas deviam ser os únicos animais que nunca param
para dizer, Olá, Bom dia… coisas que precisamos dizer uns aos outros para
sermos felizes!
Eram tão bem mandadas!
Tudo o que sabia sobre formigas fora o Pai
que lhe dissera.
Sabia que tinham uma organização
exemplar; Uma formiga que manda, um formigueiro onde cada um tem uma tarefa que
é para toda a vida…
Quando o Pai lhe contou quase tudo
sobre formigas ela pensou que não ia gostar nada de ser formiga! Sempre a fazer
tudo o que lhe mandavam e sempre a mesma coisa!
E foi na manhã em que trouxe no bolso
do vestido um pedacinho de pão do pequeno-almoço, que descobriu, que afinal as
formigas também saem do carreiro!
Para falar verdade, diverti-a ver
como se atropelavam por cima das migalhas ia até jurar que as ouvia discutir,
tal qual ela e os primos, quando Ana anunciava que havia bolo de chocolate para
o lanche e todos corriam ao mesmo tempo para a cozinha, empurrando-se e
gritando.
Talvez estas fossem formigas criança!
E provavelmente das mal comportadas, das que adoram linhas tortas e têm vontade
própria!
O Pai também lhe dissera que as
formigas como todos os animais irracionais, não pensam!
domingo, 1 de julho de 2012
PRESA AO POEMA
(Céu com estrelas de acender - meninos da Escola Básica da Estação, Valongo)
No poema moram os saltos dos peixes
na hora em que o sol
prateava as águas do rio
os passinhos das
formigas
que tronco acima tronco
abaixo arrancam sorrisos às árvores
o gosto dos morangos
tocados de lagartas
o cheiro da erva , das
pinhas, das flores da Avó e de outras silvestres
cujos olhos guardam
memória
a brisa dos montes e
vales que misturei nos cabelos
nuvens de céus diversos
que percorrem o azul empurradas de vento
conchas com segredos de
marés
sons de mar que ressoam
e me perseguem até nos sonhos
sorrisos e correrias de
meninos
que tornam raros os
meus dias.
No poema moram as mãos
que acalmam as minhas
tempestades
as noites em que a
chuva apaga estrelas
as manhãs pintadas de
rosa alperce
de pássaros e
borboletas.
No poema, no meu, mora
a vida
moras tu
moro eu!
sexta-feira, 29 de junho de 2012
SALTANDO POR AÍ
Skipping
Didn’t have
to ask you, just took my hand
Off we went
skipping throughout the land
The sky was
blue and the blood filled my head
Me and you
skipping throughout the land
All of my
life from beginning to end
What I
remember is holding your hand
And all that
I’ll cherish is that time that we’ve spent
Me and you
skipping throughout the land
All the
loves lost and the one that I found
You lifted
my gaze up off of the ground
Forever
we’ll talk and forever we’ll drown
In each
other skipping around
Gravity
pulls so many men down
The
atmosphere breathes but not in this town
You took me
away and you held me so proud
Skipping,
skipping around
And all the
king’s horses and all the king’s men
Could not
keep me from holding your hand
When all
that I wanted was something to protect
And all that
I needed was your voice in my head
And all I
remember from this life that I lived
Is me and
you skipping throughout the land
Eddie Vedder
quarta-feira, 27 de junho de 2012
ESCOLA
O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?
O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?
O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?
A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;
e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.
A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?
O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?
O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?
A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;
e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.
A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.
Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"
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