domingo, 8 de julho de 2012

MANHÃ DE DOMINGO COM PRESSA DE MAR




A cozinha estava quieta, mas conseguia sentir o cheirinho a café e torradas que inundavam a casa nos domingos da sua meninice.

Gostava de levantar-se cedo para gozar o silêncio com que a casa se vestia aquelas horas da manhã. Só mesmo Ana se levantava primeiro, talvez adivinhando-lhe os pensamentos e impedindo-a de sair para a praia sem pequeno almoço.

Era-lhe impossível arredar pé da cozinha sem comer pelo menos uma torrada e beber uma enorme caneca de leite. 

Engolia tudo com uma avidez impressionante. Tal era a pressa que tinha de mar!

Como noutras manhãs de verão, a nortada varria a praia e deixava- a só com o mar.

Navegava com os olhos o azul das águas misturando-se com os carneirinhos que o vento fazia nascer por toda a parte voltando à beirada onde novelinhos de espuma cresciam para que pudesse tricotar a mantinha que lhe cobriria o corpo.

terça-feira, 3 de julho de 2012

COISAS DE MIM E DE FORMIGAS



 ( Ilustração de Francisca Bustamante)



Que aborrecimento!

Agora que já ia na formiga número trinta, Ana resolvera chamá-la para o almoço!

- Venha menina. Deixe lá as formigas! Depois do almoço e da sesta continua a contagem!

Almoço e sesta! A parte do dia que mais detestava! Sim, sabia que tinha de comer e dormir, só tinha pena das coisas que perdia entretanto.

Desde manhã que observava o formigueiro que nascia no chão e entrava no tronco da sua cerejeira!

Em filinha, como só as formigas sabem carregavam para cima e para baixo sem nunca parar ou distrair.
Por vezes chegava a pensar que as formigas deviam ser os únicos animais que nunca param para dizer, Olá, Bom dia… coisas que precisamos dizer uns aos outros para sermos felizes!

Eram tão bem mandadas!

Tudo o que sabia sobre formigas fora o Pai que lhe dissera.

Sabia que tinham uma organização exemplar; Uma formiga que manda, um formigueiro onde cada um tem uma tarefa que é para toda a vida…

Quando o Pai lhe contou quase tudo sobre formigas ela pensou que não ia gostar nada de ser formiga! Sempre a fazer tudo o que lhe mandavam e sempre a mesma coisa!

E foi na manhã em que trouxe no bolso do vestido um pedacinho de pão do pequeno-almoço, que descobriu, que afinal as formigas também saem do carreiro!

Para falar verdade, diverti-a ver como se atropelavam por cima das migalhas ia até jurar que as ouvia discutir, tal qual ela e os primos, quando Ana anunciava que havia bolo de chocolate para o lanche e todos corriam ao mesmo tempo para a cozinha, empurrando-se e gritando.

Talvez estas fossem formigas criança! E provavelmente das mal comportadas, das que adoram linhas tortas e têm vontade própria!

O Pai também lhe dissera que as formigas como todos os animais irracionais, não pensam!

domingo, 1 de julho de 2012

PRESA AO POEMA


(Céu com estrelas de acender - meninos da Escola Básica da Estação, Valongo)



No poema moram os saltos dos peixes

na hora em que o sol prateava as águas do rio

os passinhos das formigas

que tronco acima tronco abaixo arrancam sorrisos às árvores

o gosto dos morangos tocados de lagartas

o cheiro da erva , das pinhas, das flores da Avó e de outras silvestres

cujos olhos guardam memória

a brisa dos montes e vales que misturei nos cabelos

nuvens de céus diversos que percorrem o azul empurradas de vento

conchas com segredos de marés

sons de mar que ressoam e me perseguem até nos sonhos

sorrisos e correrias de meninos

que tornam raros os meus dias.

No poema moram as mãos

que acalmam as minhas tempestades

as noites em que a chuva apaga estrelas

as manhãs pintadas de rosa alperce

de pássaros e borboletas.

No poema, no meu, mora a vida

moras tu

moro eu!




 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

SALTANDO POR AÍ




Skipping

Didn’t have to ask you, just took my hand
Off we went skipping throughout the land
The sky was blue and the blood filled my head
Me and you skipping throughout the land

All of my life from beginning to end
What I remember is holding your hand
And all that I’ll cherish is that time that we’ve spent
Me and you skipping throughout the land

All the loves lost and the one that I found
You lifted my gaze up off of the ground
Forever we’ll talk and forever we’ll drown
In each other skipping around

Gravity pulls so many men down
The atmosphere breathes but not in this town
You took me away and you held me so proud
Skipping, skipping around

And all the king’s horses and all the king’s men
Could not keep me from holding your hand
When all that I wanted was something to protect
And all that I needed was your voice in my head
And all I remember from this life that I lived
Is me and you skipping throughout the land


Eddie Vedder

quarta-feira, 27 de junho de 2012

ESCOLA




O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objectos
com a nitidez abstracta
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens. 


Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

segunda-feira, 25 de junho de 2012

DA PALAVRA AREIA




Areia…
Por quem o mar está perdido de amores.
A quem oferece véus de espuma
colares de conchas e pássaros
e a quem ama de mansinho
na beirada.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

RODA DE SORRISOS


Rolam sorrisos
pelo ar pelo chão
rolam sorrisos
ao toque da mão.
Sorrisos luminosos
empurrados de vento
sorrisos tão leves
de encantamento...
Brisas perfumadas
que o tempo não quebre.
Para que sempre feliz
seja a vida breve.


terça-feira, 19 de junho de 2012

INICIAÇÃO À LEITURA E POESIA




Aconchegada num dos ramos da sua árvore preferida, pensou que aprender a ler talvez tivesse sido a sua maior conquista!

Que quando sabemos ler somos maiores e mais importantes.

E ela aprendera a ler muito antes de ir para a escola. Não, não era sobredotada! Nada disso. Provavelmente era mais curiosa que os demais. Queria saber todos os, porque sim, os porque não, os porque assim-assim, e os porque nunca nem sim nem não! E os Avós, o Pai e a Mãe, a sua Ana, tinham sempre muito tempo e paciência para os seus porque tudo!

Quando chegou à escola ela conheceu Dona Laura, a professora mais maravilhosa que alguém pode ter. Mas já tinha aprendido a ler no vento, no verde das árvores, nos passinhos das formigas que costumava observar tronco acima tronco abaixo, no murmurar das águas do rio, nas piruetas dos peixes ensaiadas ao fim da tarde quando o seu rio, o Douro, ficava da cor da prata. Sabia ler a doçura e a raiva da chuva, as cores do céu e do mar e jurou um dia fazer um colar com pérolas de granizo!

Tinha aprendido a partir as palavras, a cheirá-las, a mastigá-las e a engoli-las bem devagar tomando-lhes o sabor e a textura… Que antes de aprender a ler temos de saber que, há palavras perfumadas, coloridas, palavras que picam, palavras livres, palavras que nos cobrem como mantos de ternura. Isto tudo aprendera ela a ler sem saber ler. Nas histórias e palavras que ouvia em seu redor aprendera a ler sem ter ido à escola!

Dona Laura ensinara-lhe a juntar as letras, as letras que formam as palavras que tão bem sabia ler! E ensinara-lhe a ler melhor nas entrelinhas, a inventar outras palavras e a viajar de sonho!
Por isso decidiu que todos os seus meninos aprenderiam a ler assim! Talvez agora os adultos que a acham uma pessoa esquisita, percebam porque observam os seus meninos os bichinhos da relva, porque tentam adivinhar perfumes no ar, porque cantam e partem palavras!

Para aprender a ler é fundamental gostar das palavras. Gostar e detestar para argumentar, criar e sonhar! E claro, descobrir qual a nossa palavra preferida!

E a sua palavra preferida ouvira a Ana. Ana sempre usava palavras enroladinhas em mantinhas de ternura, mas a palavra mais mágica que até hoje ouvira repetia-se todas as noites, quando depois de aconchegar-lhe a roupa ao deitar ouvia da boca desta:

- Durma bem MEU ACALANTO!

É certo que não sabia bem o que queria a palavra dizer, mas percebia que a palavra estava embrulhada numa das mantinhas de ternura que só Ana sabia tecer.