quarta-feira, 6 de junho de 2012

PARA QUANDO APETECE SER BARCO




                                                                     SOU BARCO

Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater ao fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde
Teu brando chamamento.

Ó mar, venha a onda forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.


António Borges Coelho




terça-feira, 5 de junho de 2012

A HORTA QUE NASCEU NA VARANDA PORQUE NÃO TEVE AUTORIZAÇÃO PARA NASCER NO RECREIO




Se é verdade que todas as casas devem ter uma varanda e muitas, muitas janelas, deviam também ter um quintal.

Agora o que nem passa pela cabeça é uma escola sem recreio!

E no recreio os meninos deviam fazer tudo, mas tudo o que se pode fazer num recreio. Pena que às vezes aparecem uns quantos adultos que decidem vá-se lá saber porquê, que os recreios são para usar pouco! Quer dizer, de preferência usar quase nada, que pode estragar!

Mandam colocar árvores muito bonitas, arbustos exóticos e semear relva, mas já decidiram que ninguém pode trepar às árvores nem pisar a relva e ai do professor que sonhe sequer alterar a estética do jardim.

Uma horta no recreio?! Mas é que nem pensar!

Mas a Professora era teimosa! Quando se trata de boas causas que fique claro!

E ela e os meninos tinham decidido depois da visita à horta do Sr. Abílio e da Dona Matilde, que teriam uma horta nem que fosse na varanda!

Compraram tudo o que é necessário e puseram mãos à obra.

Depois de preparada a terra semearam feijões e alfaces. Plantaram couves, tomates, abóboras e até um manjerico.

Depois de tudo regado os vasos foram colocados na varanda e os meninos transformaram-se em autênticos guardiões da horta observando ao milímetro o trabalho da natureza. 

Os feijões já têm flor e tal como os tomateiros tiveram de ser estacados.
Os meninos acharam graça quando a professora lhes disse que há legumes que tal como eles também gostam de trepar! 

A horta está um mimo e quem sabe os meninos ainda consigam durante este ano letivo provar os legumes da horta da varanda em salada ou sopa!

Para os que duvidaram que a professora e os meninos fariam uma horta na varanda aqui ficam as fotos!


domingo, 3 de junho de 2012

TEMPO PARA LER O MAR





Tinha até perdido a conta ao tempo que estava à janela olhando o mar.

O mar. Sempre o mar a levá-la para longe… os seus longes!

Desde pequena, quando não estava ainda autorizada a vagar sozinha pela praia que aprendera a abrir a janela, umas vezes para deixar entrar a maresia, outras para impregnar-se do seu perfume. E nas tardes em que a nortada cantava despenteando o mar e a areia, tentava igualar o voo das gaivotas soltando ao vento os cabelos e preparando a descida ao profundo das águas…

De volta à superfície aportava na sua ilha, ilha que só existia no mapa da imaginação e onde estendida na areia ficava como concha abandonada misturada com os véus de espuma tecidos pelas ondas.

Longe de tudo. Só ela e tanto mar para ler!

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O PERFUME DOS LIVROS




Os livros têm perfume
que não é de homem ou de mulher
e nem sequer é parecido
com outro perfume qualquer;
é um perfume sem nome,
não é de flor ou maresia,
mas tem o aroma secreto
que existe na poesia.

José Jorge Letria



Os nossos agradecimentos à Fundação A Lord pela participação em mais uma edição da Feira do Livro e todo um ano de atividades na Biblioteca.

E um beijinho muito carinhoso para a Fátima e a Rosário, as Bibliotecárias que durante o ano letivo além dos mimos com que sempre nos receberam nos ajudaram a descobrir o perfume dos livros!

segunda-feira, 28 de maio de 2012

"ÁRVORES QUE DÃO PÁSSAROS"




Algumas proposições com pássaros e árvores

QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração
 

Ruy Belo

quarta-feira, 23 de maio de 2012

"HISTÓRIAS QUE VOAM"





Esta é uma história menos feliz.

Os meninos sabem que as histórias por vezes não acabam bem. Quer dizer, tão bem como desejaríamos. E na história que agora vou contar nem a varinha da fada Florência conseguiu reunir a magia suficiente para que no final da história pudéssemos dizer; “ E foram felizes para sempre!”

Estavam os meninos do quarto ano no recreio da tarde e eu no fim da atividade letiva preparava-me para sair. Quando o Pedro e o Rafael me entram aos gritos na sala.

- Professora! Tem de vir imediatamente ao recreio! Está um pássaro bebé no chão! Deve ter caído do ninho. Por favor, venha ajudá-lo! Dizia o Rafael empurrando-me à sua frente!

Quando cheguei ao recreio a Carolina já estava com o passarinho na mão.

- Coitadinho está a abrir a boca! Temos de dar-lhe água e “minhocas”. Dizia.

Os pequenos gritavam todos ao mesmo tempo e até já tinham tirado o ninho do arbusto, ninho onde se encontravam mais duas pequenas criaturinhas que abriam igualmente o bico.

Já com todos sossegados, disse-lhes que não deviam ter tirado o ninho do lugar. Tal como as pessoas, os pássaros não gostam que lhes devassem a casa! E quanto a alimentar os pequenos pássaros isso era tarefa dos Pais.

Coloquei o ninho no lugar sabendo de antemão o que iria passar-se…

Hoje pela manhã contei o que se tinha passado aos meus meninos. Antes de irmos ver o que se passava preparei-os para o pior.

Tal como previ no ninho estava um passarinho sem vida. Mas se eram três?

Logo a Margarida sugeriu que a mãe deve ter levado os dois para outro ninho e aquele como caiu estava ferido, morreu! 

Os meninos estavam tristes. O Rodrigo tinha o ninho na mão e olhando para o pássaro disse:
- Ele não estava vestido e morreu de frio! O ninho não tem tampa!

- Os ninhos não têm tampa! Agora era o Pedro que falava. Morreu à fome e ao frio! Agora temos de fazer o funeral!

E antes que eu tivesse tido tempo de dizer fosse o que fosse, fizeram debaixo do arbusto uma cama de folhas onde colocaram o pássaro que taparam com outras folhas!

A Rita e a Raquel procuraram flores que depositaram em cima das folhas.

O ninho estava vazio e os pequenos admiravam a forma como estava feito.

Levamo-lo para a sala. Agora que mais nenhum pássaro iria morar nele.

A Raquel colocou-o em cima da mesa e disse que ia desenhá-lo. Alguns dos colegas resolveram imitá-la e começaram a sair do papel pássaros coloridos vindos igualmente de ninhos cheios de cor. Que voavam cada vez mais alto, tão alto como só os pássaros sabem!

E assim termina a história dos “PÁSSAROS QUE NUNCA SAIRAM DO NINHO MAS QUE VOARAM MUITO E PARA MUITO LONGE!”



domingo, 20 de maio de 2012

"O MURO VESTIDO DE FESTA E A HORTA DO SENHOR ABÍLIO E DA DONA MATILDE"





É verdade que nós não conhecíamos o Senhor Abílio e a Dona Matilde. Nem tão pouco a sua bela horta. Mas numa destas manhãs em que resolvemos,“cheirar a chuva” e nos detivemos frente a um muro” vestido de festa”, travamos conhecimento com o casal que abrindo o portão da Quinta nos convidou a entrar para que os meninos pudessem ver a horta e os animais…



À entrada fomos recebidos por uma joaninha que se colou à minha bata para que pudesse ser bem vista por todos! Feitas as apresentações a joaninha foi à vida dela e nós ouvíamos atentamente as explicações do Senhor Abílio e da Dona Matilde.

 
Na horta havia um pouco de tudo, favas, alfaces, espinafres, algumas árvores de fruto pequenas como os meninos mas das quais se esperam bons e sumarentos frutos.
Misturadas com as árvores e os legumes, algumas flores e ervas aromáticas que segundo a Dona Matilde servem para dar colorido e mais perfume à horta.


Tudo ali crescia sem pressas; explicava o Senhor Abílio:
- Agora que está tudo aconchegado, vimos só ver se estão bem e contemplar o milagre da natureza! Há que saber esperar! A natureza sabe o que faz! Não tarda e os morangos estarão pintados, as batatinhas crescidas e esta chuvinha vai amaciar as couves e deixar mais tenras as ervilhas e as favas…

Assim que o tempo pintar os morangos levo-lhe um cestinho à escola. Dizia-me, enquanto noutro canto da horta Dona Matilde apanhava alfazema e explicava aos pequenos que podiam metê-la nas gavetas da roupa para que esta ficasse cheirosa…


 
Despedimo-nos sem ver os animais pois estava quase na hora de almoço, mas vamos voltar.

Prometemos aos nossos novos amigos que os ajudaríamos a apanhar as batatas e ainda não vimos os animais da quinta. Bom, já conhecemos as ovelhas e as cabras que costumam passar em frente à escola a caminho do pasto e o burro Roberto que cumprimenta todos os que passam no portão com zurros delicados. 

- Hoje foi dar uma ajuda no campo da minha Comadre. Da próxima vez que vierem os meninos podem montá-lo. É um burro muito doce. Disse a Dona Matilde.

E eu digo que é verdade que já lhe vi os olhos!




sábado, 19 de maio de 2012

CHUVA DE MAIO



"Estoy esperando un barco
que me lleve a tu corazón
Lluvia de Mayo
moja mi cuerpo
mi alma no.

Estoy esperando un barco
que me lleve a tu pensamiento
Lluvia de Mayo
por qué‚ esta tristeza
en mi contento.

Estoy esperando un barco
que me lleve hasta tus besos
Lluvia de Mayo
empuja mis velas
a un buen puerto.

Estoy esperando un barco
que me lleve a tu corazón
Lluvia de Mayo
sigo buscando
ser mi canción."

Luís Pastor


quinta-feira, 17 de maio de 2012

"ÁRVORE VESTIDA DE NOIVA"




(…)
E quando as árvores de fruto se cobriam abundantemente de flores brancas e rosas, ela avisava: “ Estão noivas!”

Ilse Losa, “Na Quinta das Cerejeiras”