domingo, 16 de setembro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
APENAS BRISA
Apanhei num fim de abril
início de maio
as papoilas
que guardei para ti
e de que nenhum outono
tem memória.
Agora que o trigo descansa na eira
as uvas se fecham no lagar
e o milho se apruma para a colheita.
Se me perguntares
porque mudei
as papoilas de estação
dir-te-ei que afinal
elas são apenas brisa
guardada em mim.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
COMO FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO
“Para fazer o retrato de um pássaro”, de Jacques Prévert com ilustrações de Mordicai Gerstein
Faktoria de Livros / Kalandraka, 2011
Para fazer o retrato de um pássaro
Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro.
Agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta.
Esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres…
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida.
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho
com o pincel.
Depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar nalguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
e agora espera que o pássaro se decida a cantar.
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar.
Então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.
(tradução de Eugénio de Andrade do original “Pour faire le portrait d’un oiseau” de Jacques Prévert)
terça-feira, 11 de setembro de 2012
PÁSSARO COM CÉU ESCOLHIDO
De regresso à sala de
aula, eu, que os meninos só virão no início da próxima semana.
Os meus olhos detêm-se
na parede, onde ainda voa o pássaro multicolor que nos acompanhou desde o
primeiro dia de aulas do ano anterior e que pintamos juntos.
Na verdade, pintamos em
conjunto um painel de onde mais tarde nasceria um pássaro, que voaria para a
parede e que por vontade expressa dos meninos seria o único a permanecer na
sala durante as férias. É verdade que durante o ano outros pássaros
acompanharam este de que falo. Havia pequenos pássaros, peixes-pássaros, mas estes
depois de terem voado no céu da sala de aula, fizeram no final do ano ninho nas
capas que os meninos levaram para casa com os respetivos trabalhos e criações.
Quando nos sentamos
para decidir o que fazer com o enorme pássaro, os meninos começaram por sugerir
que cada um levasse um pedacinho do pássaro gigante para casa. Mas logo
concluíram que sendo assim, o pássaro original desapareceria. Alguém ainda
lembrou que podiam desenhar um pássaro mais pequeno do corpo do pássaro
gigante, ideia que também não colheu grandes adeptos, pois também destruiria “o
nosso pássaro.”
O melhor era o pássaro
ficar na parede. Guardaria a sala e em setembro logo decidiríamos o seu
destino.
A decisão dos meninos
agradou-me. Confesso, que também a mim me estava a ser custoso tirar o pássaro
do nosso céu. Afinal, quem partilhou o céu connosco merece ficar nele com um
cantinho. Já basta quando não podemos manter no céu, no nosso, todos aqueles de
que gostávamos!
O pássaro gigante olha
para mim com quase a certeza que o seu céu será por ali. E eu, aguardo ansiosa
a chegada dos outros pássaros da sala para que o céu desta se encha de novo de
cores.
sábado, 8 de setembro de 2012
JOIAS DE FADA
( Ilustração de Asako Eguchi)
As joias mais preciosas
para a fadinha do mar,
são tão-somente as conchinhas
que vai catando ao luar.
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