quinta-feira, 19 de julho de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
OS SAPATINHOS DA BRANCA DE NEVE
Já sei o que estão a
pensar!
Que há aqui um equívoco
qualquer, que os sapatinhos da Princesa Branca de Neve não interessam nada para
a história. Que os sapatos fazem parte importante de outras histórias.
Imagine-se
que os sapatos são importantes e muito em histórias de Princesas que começam
descalças, quer dizer, em histórias onde alguém por pura maldade tira os sapatos
às Princesas.
Também sei de histórias
onde as Princesas não usam sapatos. Nalguns casos porque não se usam sapatos
nas Terras dessas Princesas e outras vezes porque as princesas não vão em modas
e não gostam simplesmente de usar sapatos. Sou até de opinião, que a maioria das
princesas usa sapatos porque as Rainhas Senhoras suas Mães as obrigam.
Mas a minha opinião
também não interessa para nada nesta história que tem só mesmo a ver com os
sapatinhos da Branca de Neve.
Talvez deva começar por
dizer, que até ontem estava fora das minhas cogitações pensar nos sapatos da Branca
de Neve. Porque é verdade que me é também completamente desconhecida qualquer
versão da história onde os sapatos sejam sequer referidos como pormenor, porque
os pormenores, já se sabe, estão lá mas não interessam grande coisa?!
Mergulhando na verdade
da história e partindo do princípio de todas as histórias, de que nelas, todas
as verdades são inventadas.
A Princesa Branca de Neve usava sapatos amarelos,
só por mero acaso, a minha cor de sapatos preferida! E nunca em tempo algum a própria
ou alguém lhe tira os sapatos! Lembro que no filme da Disney a Princesa não
tira sequer os sapatos para dormir! E o que poderia parecer um mau exemplo para
todas as Princesas não passa de um mero pormenor. A Rainha sua madrasta, essa
sim é importante para a história e a maçã e os Anões e claro o Príncipe!
Mas na história que
quero contar, os sapatos da Branca de Neve são de extrema importância! Tanta,
que sem eles não haveria história.
É que, BRANCA DE NEVE,
é tão-somente a sapataria para criança mais antiga da cidade do Porto. Fica no
número, 382 da rua de Santa Catarina e calça por medida seguramente há mais de
um século os pés de meninos e meninas que acreditam em histórias.
Na montra pode ver-se a
Princesa e os Anões rodeados de sapatinhos de todas as cores e feitios e todos
os que não existirem, eles fazem! E digo eles, porque quando era pequena, eu
queria uns sapatos amarelos que tivessem um malmequer de lado e quando minha
mãe se preparava para dizer que, iam mesmo sem malmequer. Logo a empregada, que
devia ser uma fada que embora não entrando na história da outra Princesa, disse
que os Anões acrescentariam o pormenor do malmequer num simples dia. Não sei
como, minha Mãe foi na conversa e recordo desde então o par de sapatos mais
maravilhoso que tive!
Eu, que adoro andar descalça, tenho pena que a Branca de
Neve já não faça sapatinhos para a minha medida.
Mas quando passo em
frente à montra, não resisto a parar e a olhar os sapatinhos amarelos que só eu
consigo ver. E os cavalinhos de madeira do carrocel onde um dia rodopiei e onde
continuam a sentar-se meninos e meninas à espera de sapatinhos por medida que a
mim ainda me enchem as medidas!
sábado, 14 de julho de 2012
MIMOS DE CHUVA
O senhor António dono
do bar cá da praia, queixava-se esta manhã que não fora a crise para arredar as
pessoas da beira-mar, o estado do tempo também não ajudava nada!
É verdade que a nortada
tem-se instalado na praia revolvendo a areia o que torna difícil a veraneante que
se preze posar para o sol. A bem dizer, o sol também anda tímido, tanto, que
passa quase todo o dia atrás das nuvens. A lembrar o verão só mesmo ao finzinho
da tarde quando o vento vai bulir com outras praias e o sol resolve dar o ar da
sua graça empurrando as nuvens para longe conferindo à praia o ar da estação
porque tanto espera o senhor António e todos os que anseiam torrar nas areias.
Ele vai chegar um
destes dias. Nem que seja mais para o outono.
Agora que tive pena do
senhor António, lá isso tive. Quando a seguir ao almoço começou a chover o ar
desolado do pobre homem comoveu-me. Nem tive coragem de pedir-lhe que me levasse
o café à esplanada. Mas quando me perguntou:
- Lá fora, ou cá
dentro?
A resposta saiu rápida.
Lá fora!
Na verdade já ninguém
por ali achava esquisito que tomasse café à chuva. Fazia-o tantas vezes!
E como me diverte o
olhar daqueles que certamente pensam que tenho um parafusito a menos.
Não imaginam como é bom
um café sem guarda chuva. Assim como sem guarda chuva, é bom passear na praia vazia
e sentir na pele as gotas de mar e de nuvem. Nunca poderão saber a que cheira e
a que soa a praia quando chove.
Lamento pelo senhor
António, que está na minha praia há tantos anos quantos o mar, mas quem sabe um
dia outros apreciem como eu estes mimos de chuva.
quinta-feira, 12 de julho de 2012
terça-feira, 10 de julho de 2012
" SEMPRE DESEJEI QUE O MEU REINO FOSSE O DA DISSONÂNCIA "
( Graham Franciose )
Aos pássaros que gorjeiam prefiro os que grasnam
como os corvos ou os que piam na escuridão
como as vigilantes corujas brancas que infestam os meus
bosques.
O canto melodioso amolece os corpos
e anestesia as almas que renunciam à reflexão e ao tormento
e temem o rumor do dia predatório.
Sempre desejei que o meu reino fosse o da dissonância:
do gavião que, pousado na estaca, rumina a sua impiedade,
dos pássaros grasnantes que incomodam os partidários de uma
regência musical do mundo
como se estivéssemos num teatro, ouvindo uma sinfonia.
Ao gorjeio que conduz ao deleite e embala o sono
oponho o grasnido que semeia
a insônia e o desconforto.
Lêdo Ivo
domingo, 8 de julho de 2012
MANHÃ DE DOMINGO COM PRESSA DE MAR
A cozinha estava quieta, mas
conseguia sentir o cheirinho a café e torradas que inundavam a casa nos
domingos da sua meninice.
Gostava de levantar-se cedo para gozar o silêncio com
que a casa se vestia aquelas horas da manhã. Só mesmo Ana se levantava primeiro,
talvez adivinhando-lhe os pensamentos e impedindo-a de sair para a praia sem
pequeno almoço.
Era-lhe impossível arredar pé da
cozinha sem comer pelo menos uma torrada e beber uma enorme caneca de leite.
Engolia tudo com uma avidez
impressionante. Tal era a pressa que tinha de mar!
Como noutras manhãs de verão, a nortada
varria a praia e deixava- a só com o mar.
Navegava com os olhos o azul das águas misturando-se
com os carneirinhos que o vento fazia nascer por toda a parte voltando à
beirada onde novelinhos de espuma cresciam para que pudesse tricotar a mantinha
que lhe cobriria o corpo.
terça-feira, 3 de julho de 2012
COISAS DE MIM E DE FORMIGAS
( Ilustração de Francisca Bustamante)
Que aborrecimento!
Agora que já ia na formiga número
trinta, Ana resolvera chamá-la para o almoço!
- Venha menina. Deixe lá as formigas!
Depois do almoço e da sesta continua a contagem!
Almoço e sesta! A parte do dia que
mais detestava! Sim, sabia que tinha de comer e dormir, só tinha pena das
coisas que perdia entretanto.
Desde manhã que observava o
formigueiro que nascia no chão e entrava no tronco da sua cerejeira!
Em filinha, como só as formigas sabem
carregavam para cima e para baixo sem nunca parar ou distrair.
Por vezes
chegava a pensar que as formigas deviam ser os únicos animais que nunca param
para dizer, Olá, Bom dia… coisas que precisamos dizer uns aos outros para
sermos felizes!
Eram tão bem mandadas!
Tudo o que sabia sobre formigas fora o Pai
que lhe dissera.
Sabia que tinham uma organização
exemplar; Uma formiga que manda, um formigueiro onde cada um tem uma tarefa que
é para toda a vida…
Quando o Pai lhe contou quase tudo
sobre formigas ela pensou que não ia gostar nada de ser formiga! Sempre a fazer
tudo o que lhe mandavam e sempre a mesma coisa!
E foi na manhã em que trouxe no bolso
do vestido um pedacinho de pão do pequeno-almoço, que descobriu, que afinal as
formigas também saem do carreiro!
Para falar verdade, diverti-a ver
como se atropelavam por cima das migalhas ia até jurar que as ouvia discutir,
tal qual ela e os primos, quando Ana anunciava que havia bolo de chocolate para
o lanche e todos corriam ao mesmo tempo para a cozinha, empurrando-se e
gritando.
Talvez estas fossem formigas criança!
E provavelmente das mal comportadas, das que adoram linhas tortas e têm vontade
própria!
O Pai também lhe dissera que as
formigas como todos os animais irracionais, não pensam!
domingo, 1 de julho de 2012
PRESA AO POEMA
(Céu com estrelas de acender - meninos da Escola Básica da Estação, Valongo)
No poema moram os saltos dos peixes
na hora em que o sol
prateava as águas do rio
os passinhos das
formigas
que tronco acima tronco
abaixo arrancam sorrisos às árvores
o gosto dos morangos
tocados de lagartas
o cheiro da erva , das
pinhas, das flores da Avó e de outras silvestres
cujos olhos guardam
memória
a brisa dos montes e
vales que misturei nos cabelos
nuvens de céus diversos
que percorrem o azul empurradas de vento
conchas com segredos de
marés
sons de mar que ressoam
e me perseguem até nos sonhos
sorrisos e correrias de
meninos
que tornam raros os
meus dias.
No poema moram as mãos
que acalmam as minhas
tempestades
as noites em que a
chuva apaga estrelas
as manhãs pintadas de
rosa alperce
de pássaros e
borboletas.
No poema, no meu, mora
a vida
moras tu
moro eu!
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