terça-feira, 3 de abril de 2012

CONCHINHAS E LIVROS




No meio do mar havia um palácio onde morava uma Rainha.

A Rainha das conchas e conchinhas como era conhecida, pois não havia dia em que não fosse vista na beirada catando conchas, conchinhas e até pedrinhas.

Logo pela manhã e não eram raros os dias em que gostava de surpreender o sol, a Rainha abria a janela do seu palácio, aquela que ficava bem no meio do mar, e para os que acham que é difícil encontrar o meio ao mar, posso dizer que era aquela janela que não ficava nem à direita nem à esquerda, era mesmo, mesmo no meio… Aquela onde se pode ver o mar todo, todinho!

A Rainha abria a janela para respirar e beber o mar, gostava dele agitado e com muita espuma, salpicando-lhe o rosto e perfumando-lhe a pele…

Aproveitava ainda aquela hora para soltar alguns dos seus sonhos que eram muitos ao vento. Este em troca contava-lhe os segredos que ia ouvindo daqui e dali…

Então a Rainha descia à praia. Saltava nas ondas, corria na areia até chegar ao mar de conchas onde mergulhava tempos infinitos e onde tudo o resto deixava de ter importância. Ali estava ela, ela e as suas preciosas conchas. Bom, na verdade, nem as conchas eram só suas, nem estas eram assim tão preciosas. Mas a ser verdade que as conchas da beirada são de toda a gente, ela não se lembrava de ter visto em toda a praia alguém que não fosse ela, acocorado selecionando conchas, conchinhas e pedrinhas!

 Agora levava consigo só as mais raras, as de cores diferentes, acabava sempre por levar para o palácio mais do que a conta. Se lhe perguntassem quantas conchas tinha no seu palácio não saberia responder. Definitivamente tinha-lhes perdido a conta. Tinha-as de todos os tamanhos, formatos, cores, texturas. Guardava-as com ternura em caixinhas, que abria sempre que o mar não a deixava descer à praia ou simplesmente porque lhe apetecia adornar os cabelos de beijinhos, colocar um cinto de caracóis do mar no vestido, um colar de búzios… Uma vez fez até uns sapatinhos com conchas de mexilhão e cordões de algas, ficaram lindos! Pena que tivessem deixado de servir-lhe…

Mas tinha tudo guardado em caixinhas, caixinhas que empilhava nas estantes juntas aos livros.
Conchinhas e livros. Eram os bens mais preciosos da Rainha. Aqueles que não trocaria por nada, e que guardava na caixa forte do seu coração! 

Caixas e páginas de insignificâncias que faziam dela uma Rainha Feliz!




domingo, 1 de abril de 2012

VOO NOTURNO




Acreditava que ao fim da tarde o sol mergulhava nas águas para iluminar a vida das sereias e os seus belos jardins…

Sozinha na beirada apreciava o voo livre e silencioso das gaivotas, o vaivém  manso das ondas que remexiam as areias como que acomodando o sono às conchas.

Na praia começava a respirar-se a noite e ela experimentava mais uma vez um estado de alma tão raro…

sexta-feira, 30 de março de 2012

ENTRETENIMENTO




Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.

Luísa Dacosta

terça-feira, 27 de março de 2012

(DES) ARRUMAÇÕES

Algum dia teria de ser…

Não valia a pena adiar mais, teria de subir ao sótão para arrumar as “tralhas” que outrora tanto necessitara e que agora lhe atrapalhavam a vida!

Engraçados os humanos, atafulham a vida de coisas que rapidamente deixam de ser úteis e que tentam arrumar num qualquer sítio até que delas se consigam desprender um dia…

Pela parte que lhe tocava não conseguia desprender-se de nada. De todas as coisas que guardava sabia-lhes o lugar e a história.

Talvez fosse essa a razão por que adiava constantemente a subida ao sótão.

Assim que abria a porta e os seus olhos pousavam nas prateleiras e nas malas que o tempo empilhara era como se tudo aquilo de repente ganhasse uma luz própria, uma luz que lhe atravessava a alma.

Quase sem perceber como, já se achava nas mãos com o postal que o Avô lhe escrevera de Paris, onde lhe contava das maravilhas da cidade das luzes e dizia das saudades que ele e a Avó lhe tinham! E ali no baú dos brinquedos com a saia bordada a teias de aranha e pó do tempo, a boneca que fora sua confidente… E o seu caderninho! O caderno onde desenhava sonhos e esboçara os primeiros traços da vida…

Do fundo do baú parecia-lhe ainda ouvir os acordes de uma canção de Gardel,”El Dia Que Me Quieras”… Que a bailarina da caixa de música que a tia Lucy lhe tinha trazido de uma das suas viagens tentava dançar em pontas, mas que o mecanismo gasto e enferrujado já não permitiam. Não lembrava ao certo as vezes que adormecera ao som daquela melodia. Mas nunca conseguira esquecer da felicidade que sentiu no dia em que aprendeu a tocá-la no piano…

Coisas de um tempo que julgara longe…

Ali bem no canto estavam as ruínas da cadeira de baloiço que um dia pintara das cores do arco-íris com Ana. A sua Ana, ali sentada contando-lhe a sua história preferida…

Era uma vez, um Príncipe que vivia nas águas do rio e que em noites de lua cheia resolvia passear nas margens. Dizia-se que na esperança de encontrar uma Princesa que gostasse tanto do rio como ele…

Parece que o Príncipe ainda não encontrou a sua Princesa, por isso em noites de lua cheia os que acreditam em histórias encantadas conseguem ouvir os seus passos vagueando pelas margens.

E as histórias que ela conseguia ouvir só de olhar a cadeira…

Não sabia ao certo porque nunca tinha tido coragem de mandar arranjá-la. Sabia sim, porque adiava constantemente as subidas ao sótão…

É que nem sempre estava preparada para desarrumar a vida! Ou talvez hoje não fosse mesmo um bom dia para arrumações!


sábado, 24 de março de 2012

LUA CHEIA


Harvest Moon

Come a little bit closer
Hear what I have to say
Just like children sleepin'
We could dream this night away.

But there's a full moon risin'
Let's go dancin' in the light
We know where the music's playin'
Let's go out and feel the night.

Because I'm still in love with you
I want to see you dance again
Because I'm still in love with you
On this harvest moon.

When we were strangers
I watched you from afar
When we were lovers
I loved you with all my heart.

But now it's gettin' late
And the moon is climbin' high
I want to celebrate
See it shinin' in your eye.

Because I'm still in love with you
I want to see you dance again
Because I'm still in love with you
On this harvest moon





quinta-feira, 22 de março de 2012

COMO SE DESENHAM OS PERFUMES E O CALOR DA PRIMAVERA?

Raquel

Recordo o dia em que Ana, a colega do ensino especial que me apoia na sala, referiu o facto de em todas as salas por onde passava já ser outono menos na minha.

Em verdade, só não era outono ainda na sala embora já o fosse oficialmente no calendário, porque ninguém ainda o tinha trazido para dentro da sala…

Às vezes tenho alguma dificuldade em que os outros entendam que há rotinas perfeitamente desnecessárias. Por que razão há-de ser outono dentro da sala se ainda ninguém sentiu o outono? Ele haveria de chegar sem pressas e sempre na altura certa. Aquela em que todos desejássemos que assim fosse.

Já com a primavera foi diferente. Acho mesmo que esta nunca saiu da sala. Talvez porque também nunca chegou a desinstalar-se verdadeiramente no exterior. Por todos os cantos do jardim da escola houve todo o inverno, cheiros e flores de primavera. O céu de inverno esteve sempre azul e o sol quase nunca conseguiu esconder-se por entre as nuvens.

E foi numa destas manhãs, embora no calendário ainda não fosse primavera. Que a Rita durante o recreio se pôs a explicar aos colegas porque já tinha esta chegado!

Apontando os rebentos novos dos arbustos do jardim, dizia aos amigos que tal só acontecia por ser primavera. O grupo ouvia-a com atenção e descobria no muro pequenos bichinhos que pareciam também felizes por ser primavera!

 
Foi então que os meninos pediram para desenhar a primavera. E queriam fazê-lo ali mesmo no jardim…

Eu limitei-me a observá-los e a ouvir o que diziam. Se há coisa que aprendi com os meninos é que quando conversam só devo falar quando a conversa é mesmo comigo! É que aprendo tantas coisas quando estou só a ouvi-los!

A Margarida teve algumas dificuldades em segurar a folha onde desenhava, foi divertido vê-la correr atrás da folha que o vento resolveu “pôr a voar”! Descobrindo assim a leveza da folha e a intensidade do vento!

- Tens de segurá-la com força! Sugeriu o Afonso.

Uma formiguinha resolveu fazer cócegas no desenho do Rodrigo e por momentos toda a turma seguiu os seus passos até que saiu da folha e lá foi à sua vida.

Estava entretida a olhá-los, quando ouvi o Edgar perguntar:

- Como se desenham os perfumes e o calor da primavera?

Rapidamente, quase sem se fazer esperar a Raquel deu a resposta.

- Desenhas flores no ar e pintas o sol com muita cor de laranja!

Não tive a mínima dúvida, a primavera tinha mesmo chegado!