domingo, 18 de dezembro de 2011

BRINQUEDOS EXTRAORDINÁRIOS




Eugenia Gapchinska
 





Esperava ansiosamente a manhã para poder partir rumo ao Porto no primeiro comboio.

Era sempre assim, perto do Natal eu acompanhava meu Avô até à cidade invicta para juntos percorrermos várias livrarias.

Todos achavam mais normal que eu quisesse entrar em lojas de brinquedos, mas não, eu nunca me interessei muito por brinquedos. Bom, sempre gostei de legos, mas os meus brinquedos preferidos sempre foram livros e foi o meu Avô Miguel que me ajudou a descobrir que os livros são os brinquedos mais extraordinários que existem.

Quem gosta de ler sabe porquê! 

O Avô escolhia livros para ele e para os amigos e eu divertia-me a soltar as folhas dos livros que me acompanhariam no regresso a casa. Nem todos é certo. Essa era sem dúvida a pior parte, ter de deixar alguns para trás era sem dúvida horrível. Eu percebia que não podia trazer todos, mas achava injusto que assim tivesse de ser!

O meu sonho era um dia entrar numa livraria e comprar todos, mas todos mesmo, os livros que me apetecessem!

Eu acredito que mais tarde ou mais cedo todos os sonhos se concretizam, é só uma questão de tempo e o tempo de concretização deste meu sonho aconteceu na sexta-feira.

Havia já algum tempo que a minha amiga Clara me tinha pedido que a acompanhasse à Salta-Folhinhas.

A Salta-Folhinhas é uma dessas livrarias onde só existem livros.

Sim porque a maioria das livrarias além de terem poucos livros interessantes, têm várias coisas que não interessam nada para quem gosta realmente de ler!

Na livraria da Teresa, (o nome da dona da livraria é só mais uma coincidência), também se passam coisas interessantes.

Há leituras para e com Pais, leituras para Pais e Filhos, para Professores, com e sem Autores e também por lá passam muitos Contadores! Mas o que mais há na Salta-Folhinhas, são Livros, muitos Livros dos bons!

Dizia eu que a Clara me tinha pedido que a acompanhasse, o Agrupamento tinha uma verba para gastar em livros e segundo a Clara eu era a pessoa certa para a ajudar!

Chegamos à livraria por volta das duas da tarde debaixo de uma chuva torrencial e gélida!
A Teresa depois de nos receber com a sua habitual simpatia, pediu licença para ir comer qualquer coisa deixando completamente a livraria por nossa conta.

Eu ia escolhendo os livros e fazendo montinhos à minha volta, a verdade é que eu sabia todos os que queria trazer…

Quando me levantei e olhei a pilha que formava já um castelo em meu redor pensei que mais uma vez estava a exagerar, mas não, a Clara disse-me que podia continuar.

Eu nem queria acreditar no que ouvia!

Pois se eu já tinha escolhido quase cem livros!

Não me fiz rogada, continuei nas prateleiras em busca de mais brinquedos extraordinários e comecei a imaginar os olhos de espanto dos meninos quando alguém lhes lesse o que estava dentro…

Na verdade também imaginei o quanto me deixaria eu encantar quando os lesse, para depois conseguir encantar quem me ouvisse. E de como gostaria de encontrar um livro mágico que a todos fizesse gostar de ler e descobrir tudo o que pode sair de um livro!

A tarde passou num ápice, no fim tínhamos três enormes caixas de livros que eram assim como que três caixas de tesouros que vão tornar mais ricos todos os que ousarem lê-los!

A Clara não sabe que sem querer me ofereceu a melhor prenda de Natal que alguma vez tive.

É certo que para casa só trouxe um livro, mas quando penso que todos aqueles livros vão fazer parte da biblioteca da minha escola que todos os meninos vão poder mexer-lhes o maravilhamento apodera-se de mim!

O Avô haveria de ficar contente se pudesse contar-lhe!





                                           

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

PRENDA DE NATAL

    postais de natal feitos pelos meninos


Dou-te um pão
e uma flor,
dou-te um búzio
e um beijinho.
Dou-te uma canção
de amor
e um peixe pequenino.
Outro beijo
e uma estrela,
uma história
de encantar,
e um navio azul
para poderes viajar.
Abre as mãos!
Abre os olhos
e o coração
neste dia
e atravessa
também
nossa ponte de alegria.
Esta praia,
esta margem,
são um lugar
construído,
onde pode ancorar
todo o sonho
prometido.
Os da terra
e os do mar
juntos
na mesma sede,
os reis, os pescadores
puxando
a mesma rede.
Leva o beijo,
leva a estrela,
leva também o sonho
e um sorriso contente.
E pede ao Menino Jesus
que fique entre nós
para sempre.


Maria Rosa Colaço




domingo, 11 de dezembro de 2011

HISTÓRIA DE UM MENINO QUE NASCEU DENTRO DE UM LIVRO

Desenho feito pelo Gonçalo

            
 

Fechou o livro que estava a ler.

Não que não lhe apetecesse continuar a lê-lo, antes pelo contrário, quando gostava muito de um livro ela fechava-o de quando em vez e ficava quietinha. Era como se as palavras que acabara de ler fossem como chuva miúda que se vai entranhando lentamente no corpo refrescando-o.

Ela sempre fora apreciadora de chuva de palavras, daquelas palavras que ficam horas, dias e mesmo para sempre a bailar cá dentro.

O livro falava de um menino. Um menino que talvez nem existisse. Um menino que talvez só existisse porque depois do que acabara de ler ela quisesse muito que assim fosse!

Das histórias ela sabia que nem todas acabam bem. Também nem todas precisam acabar mal. Pessoalmente não apreciava as que terminavam assim-assim. As suas preferidas eram sem dúvida as histórias que não existiam. Ou quando muito só existiam dentro da sua cabeça!

Por isso fechara o livro e agora o menino da história era só aquele que ela quisera que fosse.

Um menino com um sorriso que ela nunca vira antes, um sorriso igual ao sol que ela costumava ver acordar devagar a praia e dourar de calor cada grãozinho de areia. Nos seus olhos havia sempre estrelas a brilhar mesmo que não tivesse chegado ainda a noite ou o céu estivesse carregado de nuvens. Da sua boca saiam palavras encantadas que tinham a cor da lua cheia e com as quais aquecia de ternura os corações de todos os que o conheciam. Dos seus cabelos feitos de espuma do mar saltavam peixes para o infinito. E das suas mãos soltavam-se conchas a cada gesto que iam traçando mapas pela beira do mar.

Atrevera-se a desenhá-lo na areia embora sabendo de antemão que uma onda o levaria…

Mas isso que importava se de dentro dela jamais alguém o levaria!

                                                

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

CORAÇÃO VAGABUNDO



Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o quer
Meu coração de criança
Não é só lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Caetano Veloso

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

PÁSSARO SELVAGEM

                                                                     Nadir Afonso

 
Eu morrerei.
E nos outros serei a recordação
dum grande pássaro selvagem
que bateu as asas
longamente...
longamente...
Enquanto se ouvir
o eco das minhas asas,
terei a vida das aves

Isabel Meyrelles
In ‘Palavras Noturnas e Outros Poemas’


                                                            

domingo, 4 de dezembro de 2011

RITOS QUE ACOMPANHAM AS ESTAÇÕES




O outono da sua infância começava com os cheiros das compotas e da marmelada que as mãos de Ana e da Avó tornavam ainda mais doces!

Nas fruteiras do aparador da sala de jantar estavam os frutos que coloriam de sabor a sobremesa, as uvas de várias qualidades, as suas preferidas eram as, moscatel de Hamburgo de sabor adocicado e intenso e as Ferdinand Lesseps, brancas, sem grainha, com sabor a ananás! Havia ainda os dióspiros e as romãs.

Ao fim da tarde acendia-se a lareira e de quando em vez assavam-se castanhas que deixavam pela casa um cheiro quente de outono!

Não tardaria a chegar o dia da matança do porco. Ela sempre detestara esse dia, não percebia porque tinham de matar de forma tão bárbara o pobre animal. Nunca conseguira assistir a tal barbárie, tinha tanta pena do animal, até chorava o que irritava o Senhor João o caseiro, dizia ele que o seu carpir lhe atrasava a morte, ela desejaria que a evitasse, mas perante o facto consumado prometia não comer nada saído do porco.

Mas o que mais a fascinava no outono eram as cores. Os laranjas e vermelhos que vestiam as folhas das videiras e das árvores do jardim. Eram um regalo para a vista, pelo menos para a sua. Ela nunca se cansava de ficar horas a olhar as encostas do rio, do seu Douro, e pensar em com se sentia privilegiada por poder testemunhar tanta cor e beleza, era com se as cores das folhas lhe pintassem a alma e a aquecessem por dentro!

E nisto tudo pensou vagueando hoje pela cidade quando olhou as cores doutras árvores que não as do jardim da sua infância!