quinta-feira, 22 de março de 2012

COMO SE DESENHAM OS PERFUMES E O CALOR DA PRIMAVERA?

Raquel

Recordo o dia em que Ana, a colega do ensino especial que me apoia na sala, referiu o facto de em todas as salas por onde passava já ser outono menos na minha.

Em verdade, só não era outono ainda na sala embora já o fosse oficialmente no calendário, porque ninguém ainda o tinha trazido para dentro da sala…

Às vezes tenho alguma dificuldade em que os outros entendam que há rotinas perfeitamente desnecessárias. Por que razão há-de ser outono dentro da sala se ainda ninguém sentiu o outono? Ele haveria de chegar sem pressas e sempre na altura certa. Aquela em que todos desejássemos que assim fosse.

Já com a primavera foi diferente. Acho mesmo que esta nunca saiu da sala. Talvez porque também nunca chegou a desinstalar-se verdadeiramente no exterior. Por todos os cantos do jardim da escola houve todo o inverno, cheiros e flores de primavera. O céu de inverno esteve sempre azul e o sol quase nunca conseguiu esconder-se por entre as nuvens.

E foi numa destas manhãs, embora no calendário ainda não fosse primavera. Que a Rita durante o recreio se pôs a explicar aos colegas porque já tinha esta chegado!

Apontando os rebentos novos dos arbustos do jardim, dizia aos amigos que tal só acontecia por ser primavera. O grupo ouvia-a com atenção e descobria no muro pequenos bichinhos que pareciam também felizes por ser primavera!

 
Foi então que os meninos pediram para desenhar a primavera. E queriam fazê-lo ali mesmo no jardim…

Eu limitei-me a observá-los e a ouvir o que diziam. Se há coisa que aprendi com os meninos é que quando conversam só devo falar quando a conversa é mesmo comigo! É que aprendo tantas coisas quando estou só a ouvi-los!

A Margarida teve algumas dificuldades em segurar a folha onde desenhava, foi divertido vê-la correr atrás da folha que o vento resolveu “pôr a voar”! Descobrindo assim a leveza da folha e a intensidade do vento!

- Tens de segurá-la com força! Sugeriu o Afonso.

Uma formiguinha resolveu fazer cócegas no desenho do Rodrigo e por momentos toda a turma seguiu os seus passos até que saiu da folha e lá foi à sua vida.

Estava entretida a olhá-los, quando ouvi o Edgar perguntar:

- Como se desenham os perfumes e o calor da primavera?

Rapidamente, quase sem se fazer esperar a Raquel deu a resposta.

- Desenhas flores no ar e pintas o sol com muita cor de laranja!

Não tive a mínima dúvida, a primavera tinha mesmo chegado!



terça-feira, 20 de março de 2012

"ERA UMA HISTÓRIA PASSADA NO TEMPO DA PRIMAVERA"

Odilon Redon


Era uma vez uma mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo…
Era uma vez uma velha
que bem contava uma história:
uma história muito linda
que ela tinha de memória.
Esta mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, era avó de muitos netos. Netos que, à volta do mundo, a ouviam contar.
E a avó contava, contava, devagarinho, assim a modos cansada.
Cabelos brancos de lua,
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai, netinhos, se eu me canso!
E os netos do mundo ouviam… ai!, mas o que ouviam os meninos do mundo? Uma história misteriosa…
Conta a história toda, toda,
Sem tirar sequer um ponto!
Pediam os meninos do mundo
Que a avó contasse o conto.
A avó sorria. Estremecia devagarinho, como se fosse uma árvore que o vento abanasse. E os netos do mundo escutavam.
É o vento da memória
Que me faz estremecer:
Meu coração lembra a história…
Escutem, que o ouvem bater.
E os netos, pelo mundo, ficavam muito calados a escutar a história do coração da avó.
Ai! Se a memória não falha!
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera.
E os meninos do mundo escutavam. E repetiam:
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
Era uma história lembrada
No tempo da Primavera.
E a avó sorria contente, o coração a bater de alegria. E continuava…
A história de uma menina
Que vivia num pinhal:
Seus brinquedos eram pinhas
Em cestinhas de cristal.
Em cestinhas de cristal.
Cristal da neve dos montes.
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
Nas agulhas dos pinheiros
Cantar o vento ela ouvia
E com o vento cantava
O canto da cotovia.
E o cuco com seu cu-cu,
O gaio com seu piu-piu
Eram caixinha de música
Como nunca ninguém viu.
E os netinhos do mundo ouviam, ouviam. E a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, continuava a contar…
Cabelos brancos de lua.
Os olhos rindo de manso:
― Era uma vez uma história…
Ai! Meninos, se eu me canso!
― Continua, Avó, continua! ― pediam os meninos.
Mas deixem que eu vou contar,
Se me não falha a memória:
Também tinha pombas brancas
A menina desta história.
E rolas mansas, cinzentas,
Com o seu canto a rolar:
Tanta ave no pinhal,
Tanta asa para voar!
E pelo chão do pinhal,
Também tanta vida havia:
Formiguinhas de silêncio
Que cantavam a alegria.
E tantos outros bichinhos
De conta, conta a contar.
A viverem pelo chão
Com segredos pra escutar.
E a avó ficava-se a olhar para o chão poeirento do pinhal cheio de segredos e de caruma.
E os meninos também olhavam muito curiosos para o chão poeirento do pinhal e escutavam os segredos dos bichos pequeninos, das agulhas mortas dos pinheiros.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Gritou: ― Ai! O que é? Que é?
Uma verde lagartixa
Fez-me cócegas no pé!
E os netos do mundo riam, riam, com o susto (pequenino) da avó.
Mas, ai!, que a avó, de repente,
Outro gritinho soltou:
― Uma formiga, na perna,
Aqui mesmo me picou!
E os meninos do mundo riam, riam. Oh! A avó tinha tanta graça!
Agora a avó não estremecia como se o vento a abanasse, docemente, mas dava um pulinho de pulga e coçava a perna picada pela formiga.
― Ó avó, conta, conta! ― pediam os meninos a rir.
E os meninos não paravam de pedir: ― Ó avó, conta, conta!
Ai! Se a memória não falha,
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Mas a avó parou outra vez, de repente, parou de contar. E deu outro pulinho:
Ai!, as minhas encomendas!
Rápida como uma seta,
Em meus cabelos de lua
Meteu-se uma borboleta!
E os meninos riam, riam!
― Deixa lá, avó! Continua a contar!
E a avó continuava, coçando a cabeça de luar, de onde voou uma borboleta amarela.
E a avó continuava:
Ouviu-se uma trovoada
E a menina do pinhal
Deixou cair, assustada,
A cestinha de cristal.
A cestinha de cristal,
Cristal da neve dos montes,
Feita de estrelas de água,
Água gelada das fontes.
E as pinhas, seus brinquedos,
Da cestinha de cristal,
Eram verde, verde-pinho
Que rolava pelo pinhal…
E calou-se a trovoada
E rebentaram as fontes;
E flautas de vento verde
Varriam campos e montes.
Nos ninhos abriam ovos.
Eram asas para voar:
As agulhas dos pinheiros
Já tinham novo cantar.
E a menina do pinhal
Já tinha outro brincar:
Com uma saia de giestas
Não parava de dançar…
Xaile de chuva, fininho.
Franjas de sol a voar.
A menina do pinhal
Não parava de dançar…
Com sapatos rosas bravas
Não parava de dançar:
A menina do pinhal
Já tinha outro brincar…
E depois de contar isto tudo, a mulher, velha, muito velha, velhinha mesmo, a avó dos meninos do mundo, ficou estafada. Suspirou três vezes: Uf! Uf! Uf! Ah! Ah! Ah! Mas estava tão contente! Que alegria no pinhal e pelos campos! Agora podia descansar.
E agora, meninos do mundo.
Vou dormir devagarinho.
Deitada em cama de nuvens,
Coberta de rosmaninho…
E os meninos do mundo fizeram sinal uns aos outros ― Schiu… ― para se calarem, com os dedos indicadores (os furabolos) diante da boca, em sinal de silêncio, para que a avó pudesse adormecer ― Schiu… Schiu… Schiu…
E embalaram a avó, num cantar amigo, quase calado:
Já sabemos o segredo.
Era uma história, era, era…
Era uma história passada
No tempo da Primavera!
Matilde Rosa Araújo
Histórias e canções em quatro estações
  Lisboa Editora

sábado, 17 de março de 2012

HISTÓRIA DE MAR COM ASAS-II



Estava parada em frente ao mar. Sentia uma vontade inexplicável de chorar, estava tão triste…

Talvez se sentisse assim por causa do céu cinzento e da chuva. Não, ela nunca se sentiria assim por causa da chuva. Adorava dançar à chuva e mesmo em dias como o de hoje conseguia fazer aparecer no seu céu o arco-íris!

Se ao menos o seu amigo aparecesse na praia…

Tinha tantas saudades dele. Às vezes via-o ao longe e desatava a voar ao seu encontro, mas depressa concluía que tinha apenas sonhado e ficava ali horas a fio como que esperando que o seu sonho se tornasse verdadeiro.

Se ele aparecesse poderiam rir de novo, ela tinha tantas coisas para contar-lhe e queria ouvi-lo falar das coisas do seu mundo, queria ver o seu sorriso, nunca vira nenhum outro menino sorrir assim…

Queria ver com brilham os seus olhos, sentir a doçura das suas mãos…

Não sabia explicar porquê que quando ele aparecia na praia o seu corpo ficava tão leve que mesmo sem vento conseguia planar! O mar ficava exageradamente azul e o céu era ali mesmo na areia!

Pobre gaivota, tentava entender o coração.

Perguntava-se porque ficava tão triste sempre que o seu amigo partia para lá do mar?!

Ela não poderia nunca acompanhá-lo. Como iria viver longe do seu mar?!

Só lhe restava ficar ali na areia só com as ondas….
E sonhar da cor e da luz que moram nos olhos do seu amigo!

sexta-feira, 16 de março de 2012

HISTÓRIAS QUE SAEM DE LIVROS QUE NÃO SE DEIXAM LER

Não sei bem se esta é uma história redonda, quadrada ou se tem uma outra qualquer forma geométrica. E neste momento nem vou mais pensar nisso, pois não preciso da história para pensar a matemática, bem pode acontecer que durante o desenrolar da história surja um problema que a matemática tenha de resolver, mas por enquanto o único problema que os meninos querem resolver é o de um príncipe que não tinha cavalo!

É verdade que eu pensava que o assunto do Príncipe sem cavalo já estava resolvido, mas enganei-me redondamente, por mais histórias que oiçam os meninos insistem em inventar cavalos para o Príncipe…

Podia mostrar muita surpresa por tal acontecer, mas sempre que leio uma história de um livro que não se deixa ler, acontece que as histórias se sucedem em catadupa!

E vou agora sim contar uma história lida por muitos meninos e escrita por mim só porque na sala além de também saber ler, por enquanto sou a única que também junta umas letrinhas!

 
Era uma vez um Príncipe que estava perdidamente apaixonado por uma Princesa. E não, não vou aqui dizer como era a Princesa. Se era alta, baixa, se tinha olhos cor do mar num dia de céu muito azul… Cada um que imagine a Princesa e o Príncipe dos seus sonhos…

Os meninos só querem que eu escreva que o Príncipe pensava todo o tempo na sua Princesa porque é o que acontece a quem está verdadeiramente apaixonado!

Mas o castelo da Princesa ficava um bocadinho longe do castelo do Príncipe e para a visitar este tinha de ir a cavalo. E isso nem seria um problema, pois se há coisa que não falta na cavalariça de qualquer palácio são cavalos, mas o Príncipe queria impressionar a Princesa e para tal queria assim como que um cavalo topo de gama!
 Um puro-sangue árabe?! Não, isso não seria nada original…
E depois de muito pensar…
O príncipe decidiu que iria visitar a Princesa montado num cavalo-marinho! Ele quase que apostava que nenhum outro Príncipe daquele reino ou de outro tinha um cavalo-marinho!
A Princesa iria ficar tão, mas tão impressionada que não tardaria a aceitar o seu pedido de casamento!

E depois de passar alguns dias no mar à procura do cavalo - marinho que o levaria até à sua amada Princesa, lá se decidiu por um cavalo vermelho com pintinhas brancas. Já se imaginava a dar grandes passeios pelo reino naquele cavalo com a sua Princesa…

 
Quando da torre do seu castelo a Princesa viu o Príncipe montado no belo cavalo-marinho soltou um grito de horror!

Ela achava os cavalos-marinhos animais belíssimos, mas quão ignorante era o Príncipe que não sabia que gracinhas como a sua colocavam em risco a vida de todos os cavalos-marinhos!
E quase a sua extinção.

Tão preocupado que estava em impressionar a sua Princesa que nem tinha pensado que estava a tornar infeliz, aquele e outros cavalos- marinhos…



 
Afinal ele não precisava de aborrecer os pobres dos cavalos-marinhos para ser feliz com a sua Princesa e depois juntos sempre podiam pintá-los e inventar histórias sobre eles.

 Fariam um livro sobre a vida e as cores dos cavalos-marinhos que juntos leriam aos Príncipes seus filhos quando os tivessem.

quarta-feira, 14 de março de 2012

"ANDORINHAS DE SE SONHAR"







Era uma andorinha branca
que me batia à janela
e contente anunciava
que chegara a primavera,
ou era eu que sonhava?

Eugénio de Andrade