quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Variações sobre um Poema



Esta é a história de um poema… não. Esta é a história de um gato que estava dentro de um poema e que saiu dele pela mão dos maiores especialistas em histórias que conheço, os meninos.

O poema estava dentro do livro,”Aquela nuvem e outras”, de Eugénio de Andrade e foi quando Pedro pediu que o lesse que começaram as variações sobre gatos ou melhor quando os meninos criaram um gato do gato do poema!

Pediram-me que desenhasse um gato, um gato grande que todos pudessem pintar… Nasceu assim um gato desenhado a várias mãos e pintado a outras tantas!

Começaram por pintá-lo de castanho cor de chocolate e quando a Rita e o Gonçalo resolveram pintar a cauda de amarelo e verde logo o Dinis indignado se preparava para cobrir a cauda também de castanho. Afinal onde é que existiam gatos com caudas assim?! Ele só sabia de gatos castanhos, amarelos, cinzentos, pretos… não se lembrava de mais nenhuma cor para um gato…

Mas a Rita logo argumentou que se o gato era castanho chocolate bem podia ter a cauda de outras cores, pois há chocolates de várias cores! As pintarolas, por exemplo!
Talvez aproveitando as palavras da Rita, os meninos começaram a pintalgar o gato de várias cores.

- Agora é que estragaram tudo. Disse furioso. Eu nunca vi um gato assim!

- Isso é porque tu não tens olhos de Super Homem! Disse o Pedro.

- Olhos de Super Homem! O que é que isso quer dizer? Perguntei.

- Não percebes nada Professora! Quer dizer que vê para dentro!

- Não existem gatos assim por fora! Só por dentro! Estás a perceber?!

Surpreendida e encantada, estava a perceber! Perfeitamente!

Ah! E  o gato desta história chama-se , Bigodes de Mar”, e acreditem  eu não tenho nada a ver com isso!

domingo, 25 de setembro de 2011

Silêncios Raros



A noite não tardaria a chegar à praia. Sabia de cor o que iria passar-se até que finalmente o sol mergulhasse nas águas e desse tempo às estrelas de lançar sobre a praia a sua luz…

Conhecia bem o ritual de sono do sol, mas sempre que estava no seu palácio no meio do mar não conseguia evitar descer à praia para participar nele.

Àquela hora só as gaivotas estavam na praia, umas aninhadas na areia branca outras tecendo voos rasantes sobre as águas. As mais novas saltaricando desajeitadas e tentando perceberem o que está a acontecer.

O sol, esse vai vestindo o seu pijama cor de fogo até que num último bocejo mergulha definitivamente nas águas…

A praia estava agora envolta em silêncio. Tanto, que era possível ser-se absorvida pelo rolar das ondas e aprender com estas a desfazer-se em espuma…



quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Creio termos sido feitos para amar

                                                                              ( Marc Chagall)

  

Creio termos sido feitos para amar
tranquilos. Creio sermos velhos
e  termos já sofrido o necessário
para comer em paz e ver o sol
cada manhã subir um novo dia
sem angústia alicerçada no nascente.
Creio termos gritado já bastante
em todos estes séculos – estes duros
anos que passaram. Navegámos
em círculo, morremos, renascemos…
Fugazes as tangentes que traçámos
e  falharam a alegria. Tanto tempo
e  nova morte espreita. A mão
habitual nos comprime as artérias.
Sempre os beijos longos nos escapam.
Não é então para nós? Não é ainda
o  tempo de sorrir?


Egito Gonçalves

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Maria Estrela



Houve um tempo em que também eu fiz parte da lista de professores que no inicio do ano letivo não tinha escola para lecionar…

Ao fim de vinte anos de carreira inacreditavelmente eu não tinha escola!

Confesso que não gosto muito de recordar essa época e só o faço porque quero lembrar uma grande amiga e pessoa que em muito influenciou a minha prática pedagógica.

Estive nesse ano sem lecionar até fevereiro, altura em que fui chamada para substituir uma colega que estava de atestado de longa duração. Uma doença progressiva e incapacitante impedia-a de estar na sala de aula e obrigava-a amiúde a apresentação em junta médica até que alguém decidisse aposentá-la…

A diretora executiva do Agrupamento, na altura “Presidenta”, pediu-me alguma paciência pois a colega que iria substituir costumava aparecer na sala e poderia atrapalhar o meu trabalho! 

Tão contente estava por voltar a ter turma que nunca mais pensei na colega, até ao dia em que…

Mal tínhamos acabado de entrar na sala, os meninos acomodavam-se nas cadeiras e havia bastante bulício, de repente todos se levantaram e correram para abraçar e beijar uma mulher pequenina que a mim me parecia saída de uma história encantada. Não sei o que me chamou nela mais à atenção, se o colorido das suas roupas, se a farta cabeleira preta, se os magníficos e expressivos olhos azuis, brilhavam tanto que por momentos a sala pareceu ter uma luz diferente. A forma como mimava e era mimada pelos meninos deixou-me maravilhada, era evidente que se tratava de um encontro de amigos que eu não ousava interromper.

Pediu então aos meninos que voltassem para os seus lugares e dirigindo-se a mim estendendo a mão direita disse:

- Olá, eu sou a Estrela! Maria Estrela e estes pequenos são amigos que gostava de visitar de vez em quando se não te importares!

Importar-me, depois das demonstrações de ternura a que tinha assistido ficou claro que Estrela (nunca um nome fizera a meu ver tanto jus à pessoa), precisava dos meninos e eles dela. Porque haveria eu de ser obstáculo à sua ternura?!

Em pouco tempo nos tornámos grandes amigas. Estrela aparecia sempre que a doença o permitia para minha felicidade e dos meninos.

Adorava embrulhar-nos nas suas histórias, o seu jeito de contá-las era tão encantado que conseguia mesmo empurrar-nos para dentro delas! E como brilhavam os seus olhos…

Quando não podia visitar-nos eu e os meninos íamos até a sua casa e enquanto eu e os pequenos brincávamos no seu enorme jardim ficava a ver-nos da janela do quarto sempre sorrindo.

Substitui Estrela durante três anos, altura em que mudei de escola e finalmente também alguém decidiu que Estrela estava mesmo doente e seria aposentada por invalidez. 

Por esta altura Estrela já raramente conseguia ir até à escola. Eu e os meninos continuávamos a visitá-la e a mima-la sempre que era possível.

O trabalho de pareceria que desenvolvi com Estrela foi tão enriquecedor que vou estar-lhe eternamente grata, mas o que não vou mesmo esquecer é a forma como amava a profissão e os meninos, a sua ternura e doçura acho mesmo que as copio.

Estrela partiu um dia destes para o infinito ou quem sabe mais além, mas o seu brilho nunca se apagará dos corações daqueles que puderam conhecê-la…

terça-feira, 6 de setembro de 2011

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Fugir da Praia



Num tempo longe como o da foto em que me encontro à beira mar com minha bisavó Rita, a praia fazia parte de mim e do meu verão. Costumava rumar à Póvoa de Varzim, na companhia das manas dos primos e de alguns amigos. Sob o olhar atento e paciência infindável dos avós da bisavó e de Ana posso dizer que passei momentos absolutamente maravilhosos que nem sei porquê me apetece hoje desarrumar!

O dia começava cedo na casa da praia. A avó queria todos na praia logo pela manhã é que segundo ela o iodo da manhã era o melhor para a saúde e a única forma de se protegerem das constipações durante o resto do ano. Ao que consta eu começava logo a manhã a dar problemas, detestava levantar-me cedo, fazia sempre birras para me levantar e demorava horas a tomar o pequeno-almoço. À chegada à praia havia ainda que passar pelo ritual da colocação do creme, Ana coitada repetia centenas de vezes que eu estivesse sossegada, que só podia ir brincar depois de bem besuntadinha!

Depois chegava a hora do banho, os mergulhos as brincadeiras… pensar que só saia do banho quando já estava completamente roxa dá-me vontade de rir, hoje tem dias em que considero molhar os pés um acto de puro suicídio! 

No final do banho e já todos a lanchar passava o vendedor de batatas fritas bolos e da bolacha enrolada tanto do meu agrado que dava pelo nome de língua da sogra! Normalmente os avós deixavam que usufruíssemos destes pequenos prazeres duas vezes na semana! Mais um pouco de brincadeira e regressávamos a casa para o almoço e a tão detestada por mim, sesta!

Voltávamos à praia ao fim da tarde para mais uns mergulhos e mais brincadeiras. De novo em casa fazíamos fila para a banheira e depois do jantar ouvíamos histórias maravilhosas contadas principalmente pela “minha Ana” a avó ensinava letras e melodias de canções e era desafiada pelo avô para uns passinhos de dança! E assim as horas iam preparando o sono porque amanhã haveria outro dia de sol e de mar ainda que com algumas birras à mistura!

Hoje confesso a minha total indiferença pela praia no verão! 

Só me levanto cedo se for para ver o sol acordar a praia. Já com a praia bem acordada regresso a casa para voltar às vezes ao fim da tarde, principalmente se me apetece pintar os olhos de por do sol.

Mas o que eu gosto mesmo é de fugir da praia no verão!



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ilhas que vivem dentro de nós


Dona Regina era mesmo uma pessoa difícil de entender!

Raramente sorria, a ternura parecia não morar dentro dela e quando se lhe metia uma coisa na cabeça… Aí é que não havia mesmo nada a fazer. Não aceitava qualquer tipo de argumento contrário ao seu, tudo tinha de ser como ela dizia. Ai de quem se atrevesse a contraria-la a fazer perguntas que não estavam nas soluções do seu livro de professora… Era certo e sabido que copiaria uma centena de vezes a definição por ela aventada para que ficasse bem encaixada, parafraseando a própria!

Lembra o dia em que Dona Regina mandou abrir o livro de geografia e lhe pediu que lesse a definição de ilha. Antes que tivesse tido tempo de começar a desagradável senhora disse ainda em tom ríspido:

- Leia alto, clara e pausadamente para que todos consigam perceber sem que tenha de me esforçar muito!

“- Ilha, porção de terra rodeada de água por todos os lados, onde só é possível chegar por ar ou de barco.” Ainda mal tinha acabado de pronunciar a palavra barco e já Dona Regina argumentava:

- Ora aqui está a forma como quero que me definam ilha cada vez que eu pergunte! Alguém tem dúvidas?

Claro que ninguém se atrevia a fazer perguntas. Todos conheciam o génio de Dona Regina e os seus castigos eram já famosos em toda a escola, ninguém queria levar para casa toneladas de coisas inúteis para fazer e muito menos ficar sem pôr os pés no recreio durante semanas!

Ela própria já tinha experimentado a ira de Dona Regina quando numa composição sobre as férias afirmara que os trabalhos de casa marcados pela professora tinham sido a parte menos boa das mesmas. Se ao menos a sua Professora continuasse a ser Dona Laura…

Dona Laura nunca começaria a lição com uma definição. Aliás aprendera com ela que,” uma coisa nunca é, mas está sempre a ser!” Porque na definição de qualquer coisa conta o que eu penso dela, o que eu vejo nela e o que eu consigo imaginar…

Certamente Dona Laura pediria que imaginássemos uma ilha, a nossa ilha, que poderia nem ter terra nenhuma nem mar nem rio…

Um dia o Avô Miguel lera-lhe um livro que falava das ilhas que temos dentro de nós, aquelas que não vêem em nenhum mapa que só nós conhecemos porque um dia ousamos imagina-las. Ilhas que só vivem dentro de nós ou nós dentro delas. Ilhas que fazem parte do nosso infinito pessoal e intransmissível…

Ainda bem que Dona Laura e o Avô Miguel nunca lhe ensinaram nenhuma definição de ilha. Se tal tivesse acontecido nunca descobriria dentro de si ilhas que às vezes nem sonhava existirem!