Dona Regina era mesmo uma pessoa difícil de entender!
Raramente sorria, a ternura parecia não morar dentro dela e quando se lhe metia uma coisa na cabeça… Aí é que não havia mesmo nada a fazer. Não aceitava qualquer tipo de argumento contrário ao seu, tudo tinha de ser como ela dizia. Ai de quem se atrevesse a contraria-la a fazer perguntas que não estavam nas soluções do seu livro de professora… Era certo e sabido que copiaria uma centena de vezes a definição por ela aventada para que ficasse bem encaixada, parafraseando a própria!
Lembra o dia em que Dona Regina mandou abrir o livro de geografia e lhe pediu que lesse a definição de ilha. Antes que tivesse tido tempo de começar a desagradável senhora disse ainda em tom ríspido:
- Leia alto, clara e pausadamente para que todos consigam perceber sem que tenha de me esforçar muito!
“- Ilha, porção de terra rodeada de água por todos os lados, onde só é possível chegar por ar ou de barco.” Ainda mal tinha acabado de pronunciar a palavra barco e já Dona Regina argumentava:
- Ora aqui está a forma como quero que me definam ilha cada vez que eu pergunte! Alguém tem dúvidas?
Claro que ninguém se atrevia a fazer perguntas. Todos conheciam o génio de Dona Regina e os seus castigos eram já famosos em toda a escola, ninguém queria levar para casa toneladas de coisas inúteis para fazer e muito menos ficar sem pôr os pés no recreio durante semanas!
Ela própria já tinha experimentado a ira de Dona Regina quando numa composição sobre as férias afirmara que os trabalhos de casa marcados pela professora tinham sido a parte menos boa das mesmas. Se ao menos a sua Professora continuasse a ser Dona Laura…
Dona Laura nunca começaria a lição com uma definição. Aliás aprendera com ela que,” uma coisa nunca é, mas está sempre a ser!” Porque na definição de qualquer coisa conta o que eu penso dela, o que eu vejo nela e o que eu consigo imaginar…
Certamente Dona Laura pediria que imaginássemos uma ilha, a nossa ilha, que poderia nem ter terra nenhuma nem mar nem rio…
Um dia o Avô Miguel lera-lhe um livro que falava das ilhas que temos dentro de nós, aquelas que não vêem em nenhum mapa que só nós conhecemos porque um dia ousamos imagina-las. Ilhas que só vivem dentro de nós ou nós dentro delas. Ilhas que fazem parte do nosso infinito pessoal e intransmissível…
Ainda bem que Dona Laura e o Avô Miguel nunca lhe ensinaram nenhuma definição de ilha. Se tal tivesse acontecido nunca descobriria dentro de si ilhas que às vezes nem sonhava existirem!

