terça-feira, 10 de maio de 2011

Como quem encosta um búzio ao ouvido


Eu sempre ouvira dizer que os búzios ecoam o som ressoante e longínquo do mar, mas hoje quando encostei um búzio ao ouvido não foi o som do mar azul e imenso que ouvi. O som era do mar sim, mas do mar de mim. Era como se um vento de saudade tivesse soltado a memória dos lugares das palavras dos afectos…

Sem saber como, senti-me transportada a um tempo longe, o tempo em que pela primeira vez cheguei a uma escola por minha conta e risco!

Foi em Cambres, uma aldeia do concelho de Lamego.

A escola funcionava numa das salas do primeiro andar de um velho palacete, mas segundo o presidente da junta de freguesia que me esperava no portão, a casa era toda minha teria só de ter cuidado pois algumas das salas tinham o soalho em mau estado.

Confesso que me achei uma rapariga cheia de sorte, afinal quantos docentes podem orgulhar-se da sua primeira escola ser um palácio, ainda que meio arruinado é certo, mas um palácio é um palácio…

- Bom dia menina, procura alguém?

A voz que me impediu de começar a esticar os sonhos vinha do cimo das escadas. Era de uma Senhora com ar meigo e doce e que tinha idade para ser minha Avó. Disse chamar-se Albina e quando lhe disse que era a professora, pespegou-me dois beijos ao mesmo tempo que dizia:

- É tão novinha, valha-me Deus!

E era mesmo! Eu só tinha vinte e um anos!

Dona Albina indicou-me o caminho. Do enorme hall onde me encontrava, podia ver um corredor a perder de vista com salas de ambos os lados, todas estavam pintadas com cores diferentes, à medida que avançava no corredor os meus olhos iam sendo pintados como que pelas cores do arco-íris, ao fundo a escada em caracol era a porta para o céu, (assim lhe chamamos mais tarde, eu e os meninos, pois a clarabóia gigantesca dava-nos uma vista única e privilegiada de Azul Celeste!), vizinha da porta do céu era a sala onde encontraria aqueles que viriam a ser os meus primeiros companheiros de sonhos e aventuras.

A sala não era uma sala, mas antes um enorme salão pintado de azul claro com enormes janelas que chegavam ao tecto e davam para um terraço, todo ele cheio de estátuas de anjos e vasos enfeitados de mais ervas que plantas. Dentro da sala, ao lado da lareira, havia uma armadura, era o nosso guarda de ferro, é que com os móveis da escola, conviviam os antigos móveis da casa.

Esqueci-me de dizer que das enormes janelas da sala, pendiam reposteiros de veludo azul-escuro, e que neles estavam pendurados os muitos meninos que iriam ser os meus.

Dona Albina pedia que se sentassem, mas os pequenos divertidos não a ouviam, muito menos iriam ouvir-me a mim, pensei, ainda nem sequer me tinha apresentado e Dona Albina não parava de repetir que eu não parecia professora…

As tentativas da pobre senhora para conseguir a atenção do grupo não estavam a resultar, foi então que tomei lanço e me juntei aos pequenos pendurando-me no espaço de cortinado livre.

Hoje talvez não arriscasse a proeza, só por correr o risco de levar com o cortinado em cima, mas na altura não só consegui a atenção dos meninos, como a hora de baloiçar nos cortinados se tornou numa hora, absolutamente obrigatória na rotina de sala de aula.

Talvez Dona Albina tivesse pensado na altura que lhe tinha tocado na rifa, uma professora muito maluquinha, mas as ondas de riso que vi no seu rosto deixavam antever que iríamos ser grandes amigas.

Posso dizer que Dona Albina se revelou uma grande companheira de aventuras, descobri que tinha mais sonhos do que eu, é que segundo ela, os sonhos têm de aumentar com a idade.

No dia que tive de despedir-me de Dona Albina, esta presenteou-me com um pequeno saco de pano azul, vazio, disse-me que era para eu ir guardando os sonhos mais importantes, para que nunca me faltassem, porque há um dia ou outro em que estamos cansados de sonhar e precisamos de recuperar forças…

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Amor (Muito Meu)

Há amores que são muito nossos. E os maiores amores são talvez os que o tempo nos guarda e com que nos surpreende de quando em vez. Os maiores amores não se explicam, os maiores amores são até muito difíceis de entender, porque são simples. E as coisas simples escapam ao entendimento porque recusam definições complexas.” O amor é uma cor que dá na vida”, mas jamais alguém definiu o amor. Do amor, só sabemos que precisamos dele, como pão para a boca, embora muitas vezes não saibamos como se diz.

Mas vale a pena tentar. Porque há amores que sabemos para sempre, apesar de nos terem dito já que para sempre é demasiado tempo. Como o tempo desta canção sem tempo, mas que depois de a ouvir com tempo, ficamos a amar para sempre. Do autor cantor, direi é um amor meu de perdição. Da canção, que não conheço nenhuma de amor mais bela. E que quero um amor assim. Muito meu.



Amor (Muito Meu)

Como posso dizer-te, para que me fosse simples,

para que te fosse verdade, que de vez em quando

me sei tão perto de ti.

Sim, canto e sei-te perto de mim.

Sim, ouves-me e penso que nunca me atrevi a dizer-te sequer

o quanto devo agradecer-te, por todo este tempo que levo amando-te.

Pelo caminho que fizemos juntos,

com alegria, com tristeza, mas juntos.

Houve momentos em que duvidei das minhas palavras,

mas tu deste sempre luta.

Por tudo isto e pelo que não digo,

Quero agradecer-te por todo o tempo que levo amando-te.

Amo-te sim…

Talvez timidamente, talvez sem saber amar-te.

Amo-te e tenho ciúmes e valho muito pouco se me negas a tua ternura.

Amo-te e sou feliz, quando me contagias com a tua força.

Passarão os anos e talvez tenha de dizer-te adeus, pergunto-me como aceitarei que assim seja,

se saberei acostumar-me à tua ausência.

Mas isso é outra história.

Agora só quero agradecer-te o tempo que levo amando-te.

Amo-te sim…

(Tradução Livre, Minha)

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Livros que não se deixam ler

Tencionava simplesmente limpar o pó a alguns dos livros que vou espalhando em pilhas pela casa. O escritório está repleto de montinhos de livros espalhados pelo chão, o meu cantinho de sala tem outros tantos e na minha mesa-de-cabeceira a pilha é tão grande que um destes dias arrisco acordar coberta de livros. Falta de estantes, falta de tempo para arrumações, preguiça, ou simplesmente desarrumada?! Pois, nenhuma das citadas!

A verdade é que não posso guardar nas estantes os livros que não se deixam ler! Bom, se os meninos soubessem ler-me perguntariam que livros especiais são estes que não se deixam ler.

Parece que estou a ouvi-los:

- Os livros têm pernas, não se deixam apanhar?

- Voam?

- São mágicos?

Pois os meus livros que não se deixam ler, são tudo isto e nada disto!

Um livro que não se deixa ler, é aquele que sempre que lhe pegamos uma e outra e outra e mais outra vez é como se o lêssemos pela primeira vez! O meu problema é que todas as pilhas de livros que espalho pela casa, são livros que não se deixam ler! Se é de um problema que falo?!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Dorme Queridinho





Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo, negrito

Duerme, duerme, mobila
Que tu mama está en el campo, mobila

Te va traer codornices
Para ti.
Te va a traer rica fruta
Para ti
Te va a traer carne de cerdo
Para ti.
Te va a traer muchas cosas
Para ti.

Y si el negro no se duerme
Viene el diablo blanco
Y zas le come la patita
Chacapumba, chacapumba, apumba, chacapumba.Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo,
Negrito

Trabajando
Trabajando duramente, (Trabajando sí)
Trabajando e va de luto, (Trabajando sí)
Trabajando e no le pagan, (Trabajando sí)
Trabajando e va tosiendo, (Trabajando sí)


Para el negrito, chiquitito
Para el negrito si
Trabajando sí, Trabajando sí


Duerme, duerme, negrito
Que tu mama está en el campo
Negrito, negrito, negrito.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

“ O Bando Da LIBERDADE”


Aqui na sala já todos sabemos que podemos ser o que quisermos, sempre que quisermos, basta ter muita vontade de ser.

Por isso ninguém estranhou quando numa destas manhãs, o pato da quinta aqui do lado voou por cima da rede e veio cair direitinho no nosso recreio. Tanto mais que também foi assim que travamos conhecimento com o nosso amigo galo Chico.

- Talvez ele queira vir para a escola, disse a Bruna.

-Ele deve querer ser pássaro, mas não consegue voar porque é gordo, continuou o Afonso.

- Os patos da selva voam muito alto. Desta vez era o Gonçalo quem falava.

-Na selva não há patos. Continuou o Afonso.

A discussão foi interrompida, porque o que importava agora era ajudar o nosso amigo pato a encontrar o caminho de volta à quinta.

Os meninos prometeram ficar quietos para não assustar o nosso amigo, mas já se sabe que todos queriam ajudar e o pobre do pato corria desesperado por todo o recreio. Por fim lá conseguimos apanhá-lo, mas devo dizer que o pato era mesmo especial, deu muita luta e mesmo depois de o termos agarrado não se dava por vencido, tentou até dar-me uma bicada. Claro que foi antes de ter percebido que só queríamos ajudar! Abrimos o portão do recreio e o pato foi devolvido à Liberdade. Ou não.

Já na sala os meninos pareciam ter esquecido a discussão anterior, mas eu é que não ia perder a oportunidade de brincar de pensar… e sempre que vamos pensar, os meninos sabem que há sempre um livro que pode ajudar a pensar melhor e a nunca mais acabar de pensar, ou a pensar até “fazer fumo”, expressão que usamos na sala e que só quer dizer: por agora estou satisfeito com as respostas.

Escolhi o livro,” O Voo do Golfinho “, uma história maravilhosa de, Ondjaki, ilustrada brilhantemente por, Danuta Wojciechowska.

Um golfinho que cresceu no mar, que fazia tudo o que faz um golfinho, mas que um dia sonhou ser pássaro e já se sabe que quando sonhamos com muita força, transformamo-nos mesmo em pássaro, num bando de pássaros livres só porque nos apeteceu sonhar…

Talvez o nosso amigo pato tivesse sonhado simplesmente ser pássaro ou descoberto que o seu quintal era pequeno demais para os voos que tinha em mente!