quarta-feira, 2 de março de 2011

Uma cartinhazinha

(Joan Miró)

Há já alguns dias que reparava que depois do toque de saída Cláudio se mantinha na sala de aula por mais tempo. Percebeu que o pequeno queria dizer-lhe algo mas cada vez que se preparava para perguntar-lhe, se tinha alguma dúvida se alguma coisa o preocupava, este saía num apressado: - Até amanhã professora. Mas hoje quando fechava a porta da sala foi surpreendida por uma vozinha que entre o envergonhado e o decidido, dizia:

-Professora, queria pedir-lhe uma coisa, é uma coisa que pode demorar algum tempo…

Pensou tratar-se de alguma dúvida relacionada com a matéria, mas o pequeno apressou-se a esclarecer; queria ajuda para escrever uma carta… uma carta de amor.

Disse ter pensado pedir ajuda ao irmão mais velho mas este rir-se-ia dele, diria que isso de cartas de amor é coisas de meninas… o pai e a mãe andavam sempre tão ocupados que não tinha coragem de pedir-lhes, ela sim, era quem podia ajudá-lo, além disso não conhecia ninguém que como ela soubesse tantas palavras e tinha ouvido dizer que para escrever cartas é preciso conhecer muitas palavras.

Olhou-o comovida e pensou há quanto tempo ela não escrevia uma carta e ainda há mais tempo, uma carta de amor!

Interrompendo os seus pensamentos, o menino tirou do bolso um pequeno pedaço de papel onde desenhara um coração e bordara a letra miúda uma simples frase, Gosto de Ti.

Sorriu, à sua frente tinha a mais bela e objectiva carta de amor que alguma vez lera. Ela não escreveria melhor, provavelmente usaria mais palavras, perder-se-ia com palavras, demoraria com as palavras e teria esquecido que na simplicidade das palavras se dizem as maiores coisas.

Difícil foi convencer Cláudio que não precisava de ajuda para escrever a carta, que sozinho tinha escrito a mais bela carta de amor.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Embrulhada na Maresia

Se a vissem assim tão quieta a mãe e a Ana diriam que estava doente, mas não, hoje decidira simplesmente olhar o mar da janela. Apesar do sol, o vento forte e o mar furioso não convidavam a passeios pela praia, até as gaivotas tinham voado para longe, o mar era esta tarde o dono incondicional da praia e ela ficaria ali da janela a ouvi-lo como fazia em tantas outras ocasiões. Não que não lhe apetecesse embrulhar-se de vento e sentir a espuma das ondas bater-lhe na cara, mas sabia que quando o mar toma conta da praia o mais prudente é ficar longe. Talvez amanhã o mar dê tréguas à praia. Se assim for a praia estará cheia de pequenos tesouros, conchas raras de mil cores e feitios, estrelas-do-mar que só dão à costa depois das tempestades, pedrinhas de tantas cores e tão polidas que nelas reflecte o sol as cores do arco-íris. Talvez pudesse com as algas fazer um xailinho para aconchegar os ombros e depois deitar-se na areia e ficar ali embrulhada na maresia.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Romancinho Verde


Veio primeiro uma menina

Que lindo nome ela tinha!

Chamava-se ela Maria

Era bela e pequenina!

Veio primeiro uma menina

Veio descendo até à praia,

Tinha uma saia de espuma

Era branca a sua saia.

Veio primeiro uma menina

Cor de cravo o corpetinho,

Veio descendo até à praia

A andar devagarinho.

Veio primeiro uma menina

Veio descendo até ao mar,

Pés descalços sobre a areia

Levezinho o seu pisar.

E veio depois um rapaz

Que Manuel se chamava,

Veio descendo até à praia

Onde Maria já estava.

E veio depois um rapaz

De calças de cor dos montes,

Sua camisa tão branca

Lembrava água das fontes.

E veio depois um rapaz

Com modos de namorado,

E disse manso à menina:

-É tão linda a cor do cravo!

E a menina sorrindo

Parecia uma pomba a voar:

- Ó Rapaz da minha terra

É tão lindo o teu falar!

E o rapaz também sorriu

Sorriu, estendeu-lhe a mão,

E disse manso à menina:

Tu dás-me o teu coração?

E a menina abriu os braços

Para o rapaz abraçar:

Cor de cravo e água branca

Em frente do verde mar.


Matilde Rosa Araújo

domingo, 20 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011