Tenho passado as manhãs na praia, as tardes na praia ou no rio. Tenho levado uma vida exterior e banal. E no entanto a minha “Sombra” anda por trás de tudo isto. O sol, o mar, o rio, o céu impedem-me de cair na negrura que sobe em mim. (…)
Cá vivo na intimidade do Mar e dalguns livros queridos.
Mas o Mar, o teu “Sumo Poeta”, é o mais querido e o mais relido dos meus livros. O Mar é um livro onde toda a gente pode ler tudo: É um livro onde todos podem ler o que há de mais recôndito em sua própria Alma. O Mar é um resumo da natureza.
De que serve estar de férias, se estas não forem sobretudo um tempo sem relógios?! Ou melhor, respeitando apenas o nosso relógio biológico, aquele que durante o resto do ano por isto e por aquilo, somos obrigados frequentemente a contrariar. Em férias, gosto de orientar-me pelo sol ou pela lua, depende…
De tal forma, que nunca chamaria de férias, uma viagem, ainda que de sonho fosse, com todos os minutos contados. Até aqueles em que seria suposto apreciar a beleza e a magia do lugar, sem ter a voz de um ou uma guia a perturbar o meu silêncio interior e a apressar o meu olhar.
Lamento, mas não consigo conhecer uma cidade com o turbo ligado. Não sei visitar um museu numa hora e nunca fui capaz de comer em andamento! E no aeroporto? Ele é correr para fazer o check-in, depois o voo está atrasado, ter de esperar quem sabe quantas horas mais em bancos desconfortáveis, apinhados de gente. Finalmente o voo, de longo curso como convém. Na chegada, ainda falta o fadário das malas, será que são as minhas? Ou terão viajado para outro destino que não o meu?
Desta vez tive sorte, o assunto das malas está arrumado!
Agora é correr para o hotel, ou apartamento, ou lá o que for…
Eis-me chegada finalmente ao inferno, ao paraíso, queria eu dizer!
Quarenta graus à sombra, águas transparentes e azuis, uma multidão na praia, mas com um pouco de sorte talvez consiga estender a toalha! Não há tempo para descansar da viagem, é preciso começar já a morenar que o que é bom acaba depressa. Esperemos que não se lembrem os controladores aéreos de fazer greve para que o regresso corra como o previsto. E assim, as férias em destino exótico serão para mais tarde recordar! Agora só falta mesmo, correr a casa dos amigos para exibir o moreno e o famoso vídeo das férias! Mas a visita tem de ser rápida, temos de deitar-nos cedo, é que amanhã regressamos ao trabalho e ainda não tivemos tempo para descansar!
Não! Não e não!
De viagens para fora já tenho a minha conta. Bem como cá dentro.
O que quero mesmo é viajar para dentro: sem multidões, confusões, horas marcadas só com os meus livros, a minha música e os amigos…
Ficar quietinha, sem fazer nada, contemplando só a glória da vida. Aqui, à sombra da ramada com rio ao fundo, deixo-me fascinar pela natureza que me rodeia, pelas pequenas coisas a que gosto de dar importância, aquelas que preenchem a alma e trazem suavidade e doçura à minha vida.
Viagens?! Sempre. Mas fora de época e fora de horas.
Sempre gostei de receber e escrever cartas. Daquelas que chegam pela manhã com envelope, onde está escrito, o remetente, o destinatário e têm selo e tudo! Ah, não sabem do que falo? É natural, hoje tirando as cartas que vejo os meninos escrever ao Pai Natal, que segundo consta é o único que continua a receber montes delas, que se saiba não porque se recuse a aderir às novas tecnologias, mas porque os meninos acreditam, que só escrevendo uma carta os seus pedidos serão atendidos. Hoje não se escrevem cartas. Cartas, como as que guardei e reencontrei hoje na gaveta de um armário. A precisão da caligrafia, o estilo pessoal, o tempo e a dedicação com que eram escritas, fazem claramente, parte do passado. Hoje quando muito recebemos, cartas dos seguros, da companhia da electricidade, da água… Cartas impessoais e maquinais. E as outras? As de amor, as ridículas, as que davam conta de estados de alma? As que eram escritas sem corrector ortográfico, consultando apenas o velho dicionário em caso de dúvida? Todos sabemos como deixamos que fossem substituídas, por formas de comunicação que não deixam rasto, mensagens curtas, rápidas, etéreas. Como era bom ver chegar o carteiro, com a carta esperada, ou melhor ainda com uma inesperada!
Como na canção de Jobim...da praia, Teresa sou.
Mulher,Mãe,Educadora de Infância,de criança em campo lavrado,de adolescência em montanha subida, de adulta em cidade emparedada.
Marítima d'alma, quer em vento que se "alevanta", quer em onda mansa que se espraia.