domingo, 12 de setembro de 2010

Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos






Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

(…)
António Gedeão

sábado, 4 de setembro de 2010

NO FIM DO VERÃO




No fim do verão as crianças voltam,

correm no molhe, correm no vento.

Tive medo que não voltassem.

Porque as crianças às vezes não

regressam. Não se sabe porquê

mas também elas

morrem.

Elas, frutos solares:

laranjas romãs

dióspiros. Sumarentas

no outono. A que vive dentro de mim

também voltou; continua a correr

nos meus dias. Sinto os seus olhos

rirem; seus olhos

pequenos brilhar como pregos

cromados. Sinto os seus dedos

cantar como a chuva.

A criança voltou. Corre no vento.


Eugénio de Andrade, O Sal da Língua


domingo, 15 de agosto de 2010

Talvez o mar me abra a porta do infinito



Já aqui falei dos presentes originais e cheios de imaginação que costumo receber na sala de aula. Este barquinho, que é nada mais nada menos que uma folha de hera, foi-me oferecido uma manhã pelo Alexandre.

- Quando estiveres cansada de estar na praia, vais neste barco até onde te apetecer. Disse- me o pequeno.

Na altura agradeci o presente e guardei a folha dentro de um livro, só por acaso, de poesia. Só alguns dias depois, olhando a folha com atenção, reparei que tinha um barco na mão! Talvez hoje seja um bom dia para fazer-me ao mar. Irei ao sabor das ondas e do vento, quero traçar a minha carta de marear, seguindo o mapa das nuvens e das estrelas. Talvez o mar me abra a porta do infinito!” Porque há viagens que temos de fazer só dentro de nós!”


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

BARCOS...

As minhas fotos dos meus olhos-barco olhar.
Também eles com rosto, também eles garbosos, juvenis, ou envelhecidos de tanta navegação... silenciosos no seu belo falar de sussurro ondulante da Ria...















terça-feira, 10 de agosto de 2010

CECÍLIA e Eu




INSCRIÇÃO

Sou entre flor e nuvem,
Estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
Limitados em chorar?

Não encontro caminhos
Fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
Que não sabem de água e de ar.

E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.

Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.


AR LIVRE

A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando o seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Cecília Meireles
in Mar Absoluto



domingo, 8 de agosto de 2010

Na Intimidade do Mar



Tenho passado as manhãs na praia, as tardes na praia ou no rio. Tenho levado uma vida exterior e banal. E no entanto a minha “Sombra” anda por trás de tudo isto. O sol, o mar, o rio, o céu impedem-me de cair na negrura que sobe em mim. (…)

Cá vivo na intimidade do Mar e dalguns livros queridos.

Mas o Mar, o teu “Sumo Poeta”, é o mais querido e o mais relido dos meus livros. O Mar é um livro onde toda a gente pode ler tudo: É um livro onde todos podem ler o que há de mais recôndito em sua própria Alma. O Mar é um resumo da natureza.

José Régio in Páginas do Diário Íntimo