terça-feira, 23 de março de 2010

Mar…Azul “em abuso de beleza”!




Mar de Vila-Chã, Março de 2010

"Os rios corriam às curvas e curvinhas até chegar ao grande azul para onde entornavam o seu azul fininho que ia fazer com que o azul grande ficasse ainda maior."

"O azul tomou conta de tudo à sua frente."

"(…) viu-se envolvida em azul, um azul frio, transparente e de muitas tonalidades. Era o mar."


José Fanha, in Histórias Para Contar em Noites de Luar



segunda-feira, 22 de março de 2010

CANÇÃO DA BABÁ

Um embalo maravilha...

A lindíssima poesia da Cecília Meireles, a voz suave e terna da Lena d'Água e deu-me para...

Acho que a minha miudagem vai adorar!






Cantiga da babá

Eu queria pentear o menino
como os anjinhos de caracóis.
Mas ele quer cortar o cabelo,
porque é pescador e precisa de anzóis.

Eu queria calçar o menino
com umas botinhas de cetim.
Mas ele diz que agora é sapinho
e mora nas águas do jardim.

Eu queria dar ao menino
umas asinhas de arame e algodão.
Mas ele diz que não pode ser anjo,
pois todos já sabem que ele é índio e leão.

(Este menino está sempre brincando,
dizendo-me coisas assim.
Mas eu bem sei que ele é um anjo escondido,
um anjo que troça de mim.)



domingo, 7 de março de 2010

"As coisas que não existem são mais bonitas"




VII

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a

criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona

para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele

delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer

nascimentos ___

O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

In “O Livro das Ignorãças”



quinta-feira, 4 de março de 2010

Com Olhos de Criança...

E inteligência para reflectir...

Desse grande educador Francesco Tonucci , "Com Olhos de Criança"

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mastigar os livros!


Já experimentaram mastigar livros?

Pois eu adoro fazê-lo, e asseguro que não tem nada de esquisito!

Gosto de ler as linhas, as entrelinhas, fora das linhas e traçar as minhas próprias linhas. Manias…

Claro que não consigo fazer isto tudo com todos os livros.

Há livros e livros. De alguns, vale só mesmo a pena ler o título, porque de tão insípido e desenxabido conteúdo, o título será o único a fazer-nos sonhar!

Mas depois há os tais livros que gosto de mastigar, aqueles, que de tão deliciosa leitura, gosto de trincar e saborear devagar, devagarinho…

Aqueles em que depois de avançar uma página, volto de novo atrás, pois tal é a beleza e riqueza das linhas e entrelinhas. Livros fascinantes, com os quais consigo não só voar, mas PLANAR!

Aconteceu-me com um dos livros de Mia Couto. Mar me quer.

Todo o livro é um verdadeiro tratado filosófico, as linhas e entrelinhas estão cheias de poesia pura e simplesmente deliciosa!

Leiam, este pedacinho…

(…) “Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro boas vantagens desses silêncios submarinhos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar. (…)

Se decidirem lê-lo e mastigá-lo, como eu , de certeza não se arrependerão.




sábado, 27 de fevereiro de 2010

O MEU AVÔ MIGUEL


Gosto de pensar que o meu MAR é feito de pedacinhos de muitos MARES, de todos os que para mim têm ou tiveram importância.


Como o mar do meu avô Miguel…


Meu avô que tinha fama de ter sido severo com os filhos, mas que se derretia em ternuras com os netos. Meu avô sabia que todas as ternuras do mundo, não são exagero, e todo ele era um mar de ternura.


Adorava contar-me a sua história preferida, a história de amor entre ele e minha avó.Por ter escolhido casar com minha avó, meu avô foi deserdado pelo pai. Algo de que ele não parecia importar-se, costumava dizer ,que felizmente ninguém pode deserdar-nos das nossas memórias. E que essas são as que verdadeiramente importam.


Ele e minha avó viveram uma bela história de amor Que durou 68 anos! Durou, digo eu, pois um dia destes quando o visitei, disse-me , que apesar de minha avó ter partido continua a amá-la como sempre… e grande deve ter sido o amor de quem ama sempre e para sempre!


Para meu avô eu sou a “Teresinha”, a quem ainda hoje gosta de contar histórias…
Quando o visito, e visito-o menos do que devia, tem sempre montes de histórias para me contar… e lembrar…e é tão bom mergulhar no mar de memórias que naveguei com meu avô!


Lembro o pânico de minha avó quando ele resolvia nomear ,um tal senhor de Santa Comba. Meu avô detestava-o ,e eu pensava que esse tal senhor devia ser mesmo má pessoa, pois se nem o meu avô gostava dele!


Lembro, como lhe devo parte da minha paixão pela leitura. Das horas que passamos a ler e a discutir sobre o que liamos, ás vezes , nada de acordo um com o outro.


Lembro os nossos passeios ,pelas vinhas, onde tentava ensinar-me a enxertar uma videira, mas o que transparecia era o seu amor infímo pelo Douro, pelo seus cheiros pelas suas cores.


Ou dos passeios pela planície Alentejana quando costumava visitar-nos.
E ainda dos passeios á beira mar….


Passeios que costumavam durar horas, onde me contava histórias de sereias e onde eu gostava de sonhar-me uma delas!


Hoje no pensamento, no coração, visitei-o. Meu avô faz 97 anos, ficou feliz por me ver, e eu feliz por poder ouvir mais uma história…