quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Ilhas que vivem dentro de nós
terça-feira, 28 de junho de 2011
O sol e o cavalo que vivia na estante da biblioteca
Era uma vez um cavalo…
Ou melhor, era uma vez uma égua chamada “Nahora” que vivia numa das estantes da biblioteca do meu Avô. Sim eu sei, as éguas e os cavalos não vivem dentro de casa e muito menos em cima de estantes carregadas de livros, mas Nahora era uma égua de cristal muito transparente, polido como diria a tia Zélia que a trouxera duma das suas viagens para oferecer ao Avô.
Afinal a história não tem nada de especial! Uma égua de cristal no meio de livros, um simples objecto…
Está-se mesmo a ver, por artes mágicas ou outras Nahora vai saltar da estante, quem sabe ganhar asas… e eu pergunto onde é que já li isto?!
Nesta altura da história estou a pensar como deve ser difícil para quem escreve histórias a sério inventar verdades que convençam as pessoas a continuar a ler, sim porque ninguém vai perder tempo a ler uma história que já foi escrita.
Mas como eu não escrevo histórias a sério só porque me apetece não estou preocupada se ninguém a ler, além do mais esta é só uma história minha se ninguém a ler ela continua minha, engraçado que se por acaso alguém ficar curioso e resolver lê-la ela continua a ser minha, ou não? Talvez seja minha, tua, de quem a apanhar, quer dizer de quem a ler…
Ah, esqueci-me de dizer que ao final da tarde quando o sol entrava pela janela da biblioteca para se despedir, Nahora deixava de ser transparente para ganhar todas as cores conhecidas e desconhecidas, principalmente as desconhecidas.
E foi esta história pequena que lembrei hoje enquanto estava com os meninos no Clube Hípico de Campo, Valongo.
Eu sei, não é uma grande história, mas quem decide afinal o tamanho das nossas histórias?!
terça-feira, 14 de junho de 2011
Uma história saída do armário

Esta é uma história verdadeira que só por mero acaso faz parte da minha história.
E todos sabemos que algumas das histórias que fazem a nossa história nunca chegam a passar à história! Umas vezes porque não queremos que passem, outras porque por mais que tentemos teimam em não nos largar. E quando pensamos que nos livramos delas…
Em casa dos avós o meu quarto tinha um armário de sacristia que habilmente minha mãe transformou em casa de bonecas. Quando as portas do armário se abriam o sonho punha-se ali a viver…
Curiosamente hoje quando abri o armário este contou-me outra história…
A história de uma menina que tem pavor de foguetes! Sim, desses foguetes em que são férteis as festas e romarias de Portugal!
Todos os anos na festa da padroeira cá da terra além da quantidade de foguetes que inundam o céu de fumo e ruído durante o dia, pela noite realiza-se o famoso arraial do rio.
Durante uma hora são lançados aos céus um sem número de foguetes cujas cores e feitios variados abrem de espanto os olhos e bocas de todos quantos têm dificuldade em inventar estrelas, das verdadeiras claro!
O espectáculo pode ser esteticamente muito belo, mas para quem mora à beira rio é ensurdecedor e aterrorizador. E era nesta parte da festa que eu, e “Drake”, o pastor alemão lá de casa com nome de pirata inglês, rumávamos ao armário e aí ficávamos até ao término do arraial! Confesso que não sei quem tremia mais, se eu ou o cão, mas o armário era completamente estanque ao ruído e dentro dele todos os foguetes do mundo deixavam de ter importância.
Ah! Se hoje durante o arraial rumo ao armário?
Pois, confesso que faço tudo para não estar por perto durante as festas, mas se não puder evitar, coloco os phones com o som da minha música bem alto.
Tal como antes continuo a pensar no que dirão os pobres dos peixes de tamanha estupidez humana! E continuo a tremer de medo!
Um medo terrível que me põe os nervos em franja e não consigo explicar!
terça-feira, 10 de maio de 2011
Como quem encosta um búzio ao ouvido
Eu sempre ouvira dizer que os búzios ecoam o som ressoante e longínquo do mar, mas hoje quando encostei um búzio ao ouvido não foi o som do mar azul e imenso que ouvi. O som era do mar sim, mas do mar de mim. Era como se um vento de saudade tivesse soltado a memória dos lugares das palavras dos afectos…
Sem saber como, senti-me transportada a um tempo longe, o tempo em que pela primeira vez cheguei a uma escola por minha conta e risco!
Foi em Cambres, uma aldeia do concelho de Lamego.
A escola funcionava numa das salas do primeiro andar de um velho palacete, mas segundo o presidente da junta de freguesia que me esperava no portão, a casa era toda minha teria só de ter cuidado pois algumas das salas tinham o soalho em mau estado.
Confesso que me achei uma rapariga cheia de sorte, afinal quantos docentes podem orgulhar-se da sua primeira escola ser um palácio, ainda que meio arruinado é certo, mas um palácio é um palácio…
- Bom dia menina, procura alguém?
A voz que me impediu de começar a esticar os sonhos vinha do cimo das escadas. Era de uma Senhora com ar meigo e doce e que tinha idade para ser minha Avó. Disse chamar-se Albina e quando lhe disse que era a professora, pespegou-me dois beijos ao mesmo tempo que dizia:
- É tão novinha, valha-me Deus!
E era mesmo! Eu só tinha vinte e um anos!
Dona Albina indicou-me o caminho. Do enorme hall onde me encontrava, podia ver um corredor a perder de vista com salas de ambos os lados, todas estavam pintadas com cores diferentes, à medida que avançava no corredor os meus olhos iam sendo pintados como que pelas cores do arco-íris, ao fundo a escada em caracol era a porta para o céu, (assim lhe chamamos mais tarde, eu e os meninos, pois a clarabóia gigantesca dava-nos uma vista única e privilegiada de Azul Celeste!), vizinha da porta do céu era a sala onde encontraria aqueles que viriam a ser os meus primeiros companheiros de sonhos e aventuras.
A sala não era uma sala, mas antes um enorme salão pintado de azul claro com enormes janelas que chegavam ao tecto e davam para um terraço, todo ele cheio de estátuas de anjos e vasos enfeitados de mais ervas que plantas. Dentro da sala, ao lado da lareira, havia uma armadura, era o nosso guarda de ferro, é que com os móveis da escola, conviviam os antigos móveis da casa.
Esqueci-me de dizer que das enormes janelas da sala, pendiam reposteiros de veludo azul-escuro, e que neles estavam pendurados os muitos meninos que iriam ser os meus.
Dona Albina pedia que se sentassem, mas os pequenos divertidos não a ouviam, muito menos iriam ouvir-me a mim, pensei, ainda nem sequer me tinha apresentado e Dona Albina não parava de repetir que eu não parecia professora…
As tentativas da pobre senhora para conseguir a atenção do grupo não estavam a resultar, foi então que tomei lanço e me juntei aos pequenos pendurando-me no espaço de cortinado livre.
Hoje talvez não arriscasse a proeza, só por correr o risco de levar com o cortinado em cima, mas na altura não só consegui a atenção dos meninos, como a hora de baloiçar nos cortinados se tornou numa hora, absolutamente obrigatória na rotina de sala de aula.
Talvez Dona Albina tivesse pensado na altura que lhe tinha tocado na rifa, uma professora muito maluquinha, mas as ondas de riso que vi no seu rosto deixavam antever que iríamos ser grandes amigas.
Posso dizer que Dona Albina se revelou uma grande companheira de aventuras, descobri que tinha mais sonhos do que eu, é que segundo ela, os sonhos têm de aumentar com a idade.
No dia que tive de despedir-me de Dona Albina, esta presenteou-me com um pequeno saco de pano azul, vazio, disse-me que era para eu ir guardando os sonhos mais importantes, para que nunca me faltassem, porque há um dia ou outro em que estamos cansados de sonhar e precisamos de recuperar forças…
quarta-feira, 9 de março de 2011
Cantadores de Histórias
Às vezes entrava em casa a correr para contar ao Avô as aventuras que tinha colhido no jardim. Já preparada para abrir a porta da biblioteca, parava e nem se atrevia a fazer barulho, não que o Avô se fosse zangar, mas tinha-se habituado a descobrir através da música que o Avô ouvia se podia ou não interromper… e hoje o Avô ouvia música de querer estar sozinho!
Outras vezes, ficava ali a ouvir a música e o Avô que entusiasmado lhe dizia:
- As canções são como os livros, têm de contar histórias. Não basta ter uma melodia bonita e uma boa voz, as palavras têm igualmente que encantar. E o Avô punha uma atrás da outra as suas histórias cantadas e os seus cantadores de histórias preferidos. Adorava os que cantavam em língua francesa Trenét, Ferré, Brel, Piaf, Barbara…
Havia também uma inglesa que fizera furor durante a segunda guerra, Vera Lynn, a incontornável Ella Fitzgerald, e tantos outros…
Claro que na altura não conseguia perceber a dimensão das histórias que as canções contavam, mas hoje tal como o Avô, tem dias que adora meter-se dentro dos livros, outros dentro de uma bela canção…
Contando claro, que contem uma boa história!
E já agora, um dos meus cantadores de histórias e história preferida!
Quand on n'a que l'amour
A s'offrir en partage
Au jour du grand voyage
Qu'est notre grand amour
Quand on n'a que l'amour
Mon amour toi et moi
Pour qu'éclatent de joie
Chaque heure et chaque jour
Quand on n'a que l'amour
Pour vivre nos promesses
Sans nulle autre richesse
Que d'y croire toujours
Quand on n'a que l'amour
Pour meubler de merveilles
Et couvrir de soleil
La laideur des faubourgs
Quand on n'a que l'amour
Pour unique raison
Pour unique chanson
Et unique secours
Quand on n'a que l'amour
Pour habiller matin
Pauvres et malandrins
De manteaux de velours
Quand on n'a que l'amour
A offrir en prière
Pour les maux de la terre
En simple troubadour
Quand on n'a que l'amour
A offrir à ceux-là
Dont l'unique combat
Est de chercher le jour
Quand on n'a que l'amour
Pour tracer un chemin
Et forcer le destin
A chaque carrefour
Quand on n'a que l'amour
Pour parler aux canons
Et rien qu'une chanson
Pour convaincre un tambour
Alors sans avoir rien
Que la force d'aimer
Nous aurons dans nos mains,
Le monde entier
(Jacques Brel)
