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quinta-feira, 31 de julho de 2014

MANHÃ PERFEITA


     David Chambon



Manhã perfeita-

o orvalho a voar

nas asas de uma libelinha

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

AVESSO





Como os cantinhos da minha praia

sei os da tua pele…

Mas é o teu avesso que me fascina.

domingo, 23 de setembro de 2012

RELATIVIDADE





Que me importa
que para lá da janela
o mar grite
o vento despenteie a areia
nele voem as conchas da praia
e o outono chegue a passinhos de chuva.

Se por entre os lençóis
mora ainda a luz quente e larga de agosto
a sombra que veste as árvores
o gosto selvagem das amoras
a doçura das ameixas
a frescura do rio
e no meu jardim
há ainda rosas por colorir
à espera que chegues.

sábado, 11 de agosto de 2012

TARDE À ESPERA




Gaivotas cansadas de voar,
barcos à deriva na areia,
mar de pouca espuma,
homens resignados,
nuvens imóveis em céu sem cor.
Urge pintar a tarde,
para conseguir roubá-la ao tempo!

sábado, 14 de julho de 2012

MIMOS DE CHUVA


 ( Eu com guarda chuva, mimo da minha filha mais nova)
 
O senhor António dono do bar cá da praia, queixava-se esta manhã que não fora a crise para arredar as pessoas da beira-mar, o estado do tempo também não ajudava nada!

É verdade que a nortada tem-se instalado na praia revolvendo a areia o que torna difícil a veraneante que se preze posar para o sol. A bem dizer, o sol também anda tímido, tanto, que passa quase todo o dia atrás das nuvens. A lembrar o verão só mesmo ao finzinho da tarde quando o vento vai bulir com outras praias e o sol resolve dar o ar da sua graça empurrando as nuvens para longe conferindo à praia o ar da estação porque tanto espera o senhor António e todos os que anseiam torrar nas areias.

Ele vai chegar um destes dias. Nem que seja mais para o outono.

Agora que tive pena do senhor António, lá isso tive. Quando a seguir ao almoço começou a chover o ar desolado do pobre homem comoveu-me. Nem tive coragem de pedir-lhe que me levasse o café à esplanada. Mas quando me perguntou:
- Lá fora, ou cá dentro?
A resposta saiu rápida. Lá fora!

Na verdade já ninguém por ali achava esquisito que tomasse café à chuva. Fazia-o tantas vezes!

E como me diverte o olhar daqueles que certamente pensam que tenho um parafusito a menos.

Não imaginam como é bom um café sem guarda chuva. Assim como sem guarda chuva, é bom passear na praia vazia e sentir na pele as gotas de mar e de nuvem. Nunca poderão saber a que cheira e a que soa a praia quando chove.

Lamento pelo senhor António, que está na minha praia há tantos anos quantos o mar, mas quem sabe um dia outros apreciem como eu estes mimos de chuva.

terça-feira, 3 de julho de 2012

COISAS DE MIM E DE FORMIGAS



 ( Ilustração de Francisca Bustamante)



Que aborrecimento!

Agora que já ia na formiga número trinta, Ana resolvera chamá-la para o almoço!

- Venha menina. Deixe lá as formigas! Depois do almoço e da sesta continua a contagem!

Almoço e sesta! A parte do dia que mais detestava! Sim, sabia que tinha de comer e dormir, só tinha pena das coisas que perdia entretanto.

Desde manhã que observava o formigueiro que nascia no chão e entrava no tronco da sua cerejeira!

Em filinha, como só as formigas sabem carregavam para cima e para baixo sem nunca parar ou distrair.
Por vezes chegava a pensar que as formigas deviam ser os únicos animais que nunca param para dizer, Olá, Bom dia… coisas que precisamos dizer uns aos outros para sermos felizes!

Eram tão bem mandadas!

Tudo o que sabia sobre formigas fora o Pai que lhe dissera.

Sabia que tinham uma organização exemplar; Uma formiga que manda, um formigueiro onde cada um tem uma tarefa que é para toda a vida…

Quando o Pai lhe contou quase tudo sobre formigas ela pensou que não ia gostar nada de ser formiga! Sempre a fazer tudo o que lhe mandavam e sempre a mesma coisa!

E foi na manhã em que trouxe no bolso do vestido um pedacinho de pão do pequeno-almoço, que descobriu, que afinal as formigas também saem do carreiro!

Para falar verdade, diverti-a ver como se atropelavam por cima das migalhas ia até jurar que as ouvia discutir, tal qual ela e os primos, quando Ana anunciava que havia bolo de chocolate para o lanche e todos corriam ao mesmo tempo para a cozinha, empurrando-se e gritando.

Talvez estas fossem formigas criança! E provavelmente das mal comportadas, das que adoram linhas tortas e têm vontade própria!

O Pai também lhe dissera que as formigas como todos os animais irracionais, não pensam!

domingo, 1 de julho de 2012

PRESA AO POEMA


(Céu com estrelas de acender - meninos da Escola Básica da Estação, Valongo)



No poema moram os saltos dos peixes

na hora em que o sol prateava as águas do rio

os passinhos das formigas

que tronco acima tronco abaixo arrancam sorrisos às árvores

o gosto dos morangos tocados de lagartas

o cheiro da erva , das pinhas, das flores da Avó e de outras silvestres

cujos olhos guardam memória

a brisa dos montes e vales que misturei nos cabelos

nuvens de céus diversos que percorrem o azul empurradas de vento

conchas com segredos de marés

sons de mar que ressoam e me perseguem até nos sonhos

sorrisos e correrias de meninos

que tornam raros os meus dias.

No poema moram as mãos

que acalmam as minhas tempestades

as noites em que a chuva apaga estrelas

as manhãs pintadas de rosa alperce

de pássaros e borboletas.

No poema, no meu, mora a vida

moras tu

moro eu!